Vampire é Clash com chiclete

Show na Via Funchal teve efeito de axé music na noite, que mostrou banda versátil e autoconfiante

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2011 | 00h00

O Vampire Weekend instaurou uma verdadeira micareta na Via Funchal. Só faltou o trio elétrico. É a junção do Clash com o Chiclete com Banana. O grupo entrou no palco logo após soltarem uma bomba Claudinho & Buchecha nos ouvidos da plateia, para preparar os espíritos. Ao estilo Farol da Barra, o povo caiu na farra e assim foi até o fim. É como se um grupo daqueles típicos da programação do CBGB tivesse sido sequestrado pelo Asa de Águia.

A Via Funchal não esteve cheia, muito pelo contrário - tinha pouco mais de dois terços da lotação de 7 mil pessoas. Mas a audiência era escolada e pulou e balançou as mãozinhas no ar como se o show fosse da Claudia Leitte. A banda entrou pouco depois das 22h30, com a sem-cerimônia típica das estrelas antiglamourosas da esfera indie.

O vocalista do Vampire Weekend, Ezra Koenig, é uma figura, rock star com cara de estudante de Física. É a cara do ator Paul Rudd, só que numa versão compacta. Eles abriram o show com Holiday, a terceira música de seu álbum mais recente, Contra (2010) - por sinal, do disco todo, só não tocaram uma música, Tax Cab. Pense bem: que banda toca um disco novo inteiro num show, sem se preocupar se vai agradar ou não? Só uma banda que tenha absoluta confiança no seu faro para hits.

Muita coisa aproxima o primitivismo do Konono n.º 1, banda congolesa, do ataque melódico do Vampire Weekend. É no tecladinho de Rostam Batmanglij que se concentra a conexão África, mais do que na percussão.

Giving Up the Gun reúne a vibração típica do Clash da fase Straight to Hell, um ska-punk da melhor cepa. Já California English é algo da melhor tradição do eletropop africano. A percussão do Vampire Weekend parece que não tem topete para encarar essa música - afinal, é só um baterista comum. Mas o sujeito pegou o timing da coisa, é surpreendente. Na balada Em I Think Ur a Contra, eles parecem aproximar Paul Simon de Lokua Kanza. No reggae Diplomat"s Son, eles desconstroem a melodia fazendo vários breaks harmônicos no meio da canção, uma espécie de aula concentrada dos derivados jamaicanos, do dancehall e do dub.

Os berros de Ezra Koenig em Blake"s Got a New Face voltam a aproximá-los do Clash. Suas grandes intervenções com o público se concentravam em ensinar os fãs a berrar refrões, que ele devolvia com habilidade. O som deles bebe em inúmeras fontes, sem pedantismo ou afetação. Mansard Roof lembra muito as trilhas de comédias românticas praieiras dos anos 1950. O Vampire Weekend eletrifica temas que, nas mãos de outra banda, poderiam resultar meramente folclóricos, como Oxford Comma. Usam distorção e repetição. Os teclados são daquele tipo que parecem tão primários que você tem a impressão de poder tocá-los em sua campainha. É o caso de Walcott, que fechou o show. Não se iluda: é assim que se faz o melhor pop do planeta.

No meio de I Think Ur a Contra, seguranças da Fonseca"s Gang arrastaram um garoto ao banheiro. Gritavam para o resto sair. E prenderam o garoto num box, em busca de maconha. Constrangedor, é preciso coibir isso.

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