Como um Roberto Carlos da Terra da Rainha, Paul faz quase tudo sempre igual, conta quase sempre a mesma piada, finge que relata uma história nova, decora palavras da língua nativa que lê em folhas no chão. O saldo de sua turnê pelo Brasil é o de sempre: uma eficiência a toda prova, um admirável senso de profissionalismo que leva shows a durarem mais de 2h30 (o último durou 2h40), sets de 36 canções, um timing de diplomata do ritmo.

11 de maio de 2013 | 02h08

Em Fortaleza, no Estádio do Castelão, diante de 50 mil pessoas, no encerramento da sua turnê Out There, Paul cuidou de tudo, até do toque final, um bilhete de despedida divulgado minutos depois de sua partida da cidade pela produção do seu show - ao mesmo tempo, o maior fã-clube dos Beatles na América Latina, o Revolution, já iniciava um movimento para pedir seu retorno a São Paulo para depois da Copa de 2014.

"As plateias brasileiras são incríveis, e é por isso que estamos sempre retornando. Todos os shows desta semana foram incríveis. As multidões foram maravilhosas e, é claro, em Goiânia tivemos os gafanhotos juntando-se a nós, o que foi inacreditável. Ninguém podia prever aquilo", escreveu Paul McCartney.

Em Fortaleza, como é comum em final de turnês, Paul já dava mostras de que estava fatigado. O público também está um tanto esgotado: pela primeira vez durante suas recentes vindas ao País, havia ainda ingressos à venda nas bilheterias minutos antes do show, e promoções para vendê-los.

Paul repetiu o ritual de se apossar de expressões típicas das cidades que visita e fez o Estádio do Castelão rir ao dizer "vamos botar boneco", expressão que equivale a "vamos tirar um sarro" ou "vamos fazer brincadeira". Ele ainda completaria com um especialíssimo "Eita, mah!", uma daquelas interjeições que se usam muito aqui, mas só um cearense sabe usar certo.

"Oi, Fortaleza. Boa noite, cearenses", cumprimentou o cantor, após as primeiras três músicas (Eight Days a Week, Junior's Farm e All My Loving). "Finalmente vão poder ir ao Castelão", brincou, talvez informado sobre a demora no término das obras do estádio. "É ótimo estar de volta ao Brasil. Ótimo!", repetiu.

Paul mudou levemente a ordem das canções em relação aos primeiros shows da turnê, em Goiânia e Belo Horizonte. É ótimo ver como ele estrutura, durante o espetáculo, os elementos que comprovam seu papel como um dos heróis do rock'n'roll (muito além do Mágico de Oz do Pop), em canções de pegada mais áspera e difícil como Junior's Farm, Let me Roll It e We Can Work It Out.

Quando brinca com os vocais no microfone ao lado de seu baterista, Abe Laboriel, na bela e acústica Hope of Deliverance, Paul sorri mais satisfeito, largamente satisfeito, como se mostrasse que suas motivações vitais estejam sempre a postos para serem despertadas, renovadas.

Paul ainda brincou com um fã do alto do palco que, sugeria-se, tinha se casado naquele momento ("Eu abençoo sua aliança de casamento", disse-lhe Paul). "Esta noite vou falar um pouco de português. Espero não falar bobagem", afirmou, em uma de suas frases ensaiadas em português. Nada disso: seu "personal sotaqueitor" mandou muito bem - ao final, ele ainda soltou um "Vamos vazar!", para anunciar a saída do Estádio.

Paul saiu fácil, mas a multidão teve problemas na chegada e na saída, com trânsito engarrafado. A avenida de acesso à nova arena ainda está em obras, e os operários trabalhavam no meio do trânsito. Para o orgulho de uma região, no entanto, a passagem da comitiva de Sir Paul foi um maravilhoso presente.

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