Vamos seguir o horário oficial de Brasília

Sérgio de Santa Adélia (este é o nome real, mas muita gente pensa que é por ele ter nascido em Santa Adélia, interior paulista) estava almoçando, quando o sujeito da mesa ao lado comentou com a mulher:

, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

? Acho curiosa esta história de hora oficial de Brasília.

? Por quê? É a hora brasileira!

? Deveria ser, e se fosse, seria uma maravilha.

? Pois lá vem você com suas manias, considerações, protestos, ou sei lá o quê?

? Desta vez nem é mania, nem protesto, nem implicância, é apegar-me à realidade.

? E o que tem isso a ver com o horário oficial de Brasília?

? Muito. Nossa vida seria outra.

? Como outra?

? Teríamos tempo para tudo. Por exemplo, nossa semana começaria na terça-feira, que é quando os políticos chegam de volta. Depois, terminaria no meio da sexta-feira, ou mesmo na quinta, que é quando os políticos partem da capital para seus redutos eleitorais, como dizem os jornais.

? Ah, não me venha...

? Poderíamos estar no trabalho, sem estar no trabalho. Chegaríamos ao escritório, mas ficaríamos no café, nas salas de reuniões, de comissões, de bate-papos. De vez em quando iríamos até a sala de reunião ver se a turma estava debatendo alguma coisa, se tinha algum assunto importante, responderíamos à chamada, e voltaríamos ao aconchego.

? Onde é que você quer chegar?

? A uma unidade de horário e de trabalho para todo o Brasil. Por exemplo, em junho, entraríamos em férias coletivas, com remuneração total para podermos assistir aos jogos da Copa do Mundo com os nossos familiares e amigos. Isso se chama unir a família, comungar o patriotismo, torcer pela seleção. Atenderíamos ao pedido do Dunga: tudo pela Pátria, ação, força, combate, dar o sangue. Estaríamos frente aos nossos telões dando nosso sangue, suando, torcendo, vibrando e comunicando nossas vibrações ao sagrado time que na África luta por nós.

? Acho que teu problema é fome. Você nunca ligou para futebol, muito menos seleção.

? Mas agora é a Pátria em jogo.

? Que pátria, toma aí teu suco de tomate temperado. Vai ver puseram muita pimenta, você se exaltou.

Porém, na mesa ao lado, Sérgio tinha se empolgado com a ideia do vizinho de restaurante ("Este é dos meus", pensou) e na segunda-feira comunicou no escritório a sua campanha pró-horário oficial Brasília para todos. Teve a adesão de alguns, redigiram um manifesto, colocaram na internet, estão em busca de assinaturas. Pedem: você que assinou pela votação do Ficha Limpa, assine também esta. Igualdade, fraternidade. A lista está correndo por aí. Não pensem que é vírus, não. É um movimento honesto, correto, justo. Paridade de horário com Brasília e de trabalho. Assinem. Os companheiros conhecem bem as causas que Sérgio de Santa Adélia defende. Uma delas foi a da segunda-feira.

Propôs acabar com elas, queria que a semana começasse na terça. Porque, dizia, a segunda é um dia terrível, acaba com nossos nervos, traz inquietação, aquela inquietação que começa quando vemos a Patrícia Poeta e o Zeca Camargo anunciando o Fantástico. Naquele momento começa o comichão. O domingo está acabando, ai meu Deus, amanhã é o dia! Cada vez que Sérgio vê as chamadas do Fantástico, durante a semana, com a dupla de apresentadores atuando, ele se assusta, paralisa, pensa que a segunda-feira vai começar, e sente-se mal. É uma paranoia, já foi estudada pelos psiquiatrias, chama-se a Síndrome da Segunda-feira. Aliás, já estudei o assunto em um livro de contos chamado O Homem Que Odiava a Segunda-Feira.

Porém, repito propositalmente, nosso amigo é o das causas permanentes. Ele está pedindo audiências com os estudiosos da língua portuguesa. Já escreveu para a araraquarense Maria Helena Moura Neves e para Evanildo Bechara e outras sumidades porque quer muito saber onde começou uma nova forma de agradecimento. Alguém te faz um favor, ou tem um gesto gentil, presta uma informação e você agradece:

? Obrigado.

A pessoa responde na hora:

? Imagine.

Imaginar o quê? Por quê? Em função do quê? Ele perdeu o sono muitas noites, fazendo mil hipóteses e não consegue chegar a nenhuma. Onde teria nascido isso? Como? Talvez exista algum costume ancestral, remoto que possa dar um sentido a essa resposta. Ou será de propósito? Algo como uma pegadinha? É para a pessoa ficar imaginando, supondo, querendo desvendar o mistério? O que há para imaginar? É uma tentativa de obrigar o outro a pensar, a raciocinar, a pôr a cabeça e as ideias em ação, algo para sacudir a inércia?

Porém, repito pela terceira vez, Sérgio não se esquece de outra causa. Está fazendo um dicionário de perguntas inúteis. A primeira delas é dirigida ao garçom, quando, no restaurante, você está em dúvida diante do cardápio:

? E tal prato está bom?

Outra é na quitanda, ou na feira, quando, apontando uma fruta na banca, seja melancia, abacaxi, manga, você indaga:

? É doce?

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