Bobby Yip/Reuters
Bobby Yip/Reuters

'Valsa Esquecida' revela frágeis relações entre adultos

Romance da escritora irlandesa Anne Enright traz uma prosa perturbadora baseada na traição

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

09 Outubro 2012 | 03h10

Enquanto a crise econômica assustava a Europa, com ameaça de um futuro tenebroso, a escritora irlandesa Anne Enright buscava, na literatura, dias melhores. Era 2009 e ela buscava o seu caminho num país à beira do precipício. Anne é dona de uma escrita cortante, impiedosa, que a consagrou em 2007, quando venceu o Man Booker, principal prêmio literário da comunidade britânica, com O Encontro.

"Investiguei a respeito da negação e da felicidade e o adultério se enquadrou perfeitamente nestas duas coisas", disse ela ao Estado, por e-mail, a respeito de A Valsa Esquecida, romance publicado agora pela Alfaguara. Novamente, Anne Enright traz uma prosa perturbadora, baseada na traição.

Com uma narrativa fragmentada, ela mostra como Gina mantém um caso extraconjugal com Seán, homem casado e pai de Evie, menina com deficiência mental, o que torna o adultério algo mais culposo e aterrador. Em primeira pessoa, sob o ponto de vista de Gina, o texto segue potente, desconfortável e impressionante. Sobre seu processo criativo, Anne respondeu às seguintes perguntas.

Gina é uma pessoa que desencadeia o caso - não se trata de uma mulher boa ou má, ela é ela mesma. Por que tal personagem feminino lhe interessa?

As pessoas não fazem coisas más de propósito. Na vida real, sofremos alguns tropeços, sentimo-nos carentes, nós nos machucamos por acidente. Acima de tudo, na vida real, nós nos consideramos pessoas "boas" e os outros pessoas "más". Recebo muitas queixas de que os meus personagens não são agradáveis. Acredito que isto ocorra porque queremos que as nossas heroínas sejam como nós (realmente legais!) e nossos vilões sejam como os outros (não tão legais!) e isto me diverte como escritora. Além disso, queremos sempre que as mulheres sejam boazinhas - não podemos evitar. Uma parte de nós será sempre aquela criança indefesa que precisa de uma mãe generosa e teme a mãe malvada. Mas eu não escrevo para a criança que está em mim. Escrevo para o meu eu adulto (pelo menos uma parte do tempo) e crio personagens que são mulheres normais, assim como concebemos personagens masculinos normais. Crio mulheres que têm personalidade, motivações e que não são melhores do que deveriam ser.

Não acredito que comparar um autor a outro seja um elogio, mas não resisto a fazer isto com o seu livro e obras como Madame Bovary e Anna Karenina. De alguma maneira, estes livros lhe serviram de inspiração?

É preciso conhecê-los para escrever sobre adultério. Madame Bovary e Anna Karenina morreram pelas próprias mãos. Foi este o preço terrível que tiveram de pagar por desejar um homem fora da instituição do casamento. Em A Valsa Esquecida, Gina não cai debaixo de um trem, ela cai porque se apaixona - porque o amor é a melhor punição que imagino para o desejo.

Acha que os romancistas têm alguma obrigação moral com os seus personagens e leitores?

O romance se desenrola na sociedade, e por isso é sempre uma criação moral. Acho que os escritores têm obrigação de analisar o que é moral, e não de ceder a ele.

A Valsa Esquecida tem como pano de fundo a crise financeira da Irlanda. Foi impossível evitar o tema? Ou foi intencional?

Comecei a escrever o livro em 2009 - mais ou menos no dia em que a ação se inicia. Decidi que ela seria absolutamente contemporânea, porque é uma época muito marcante e melancólica para a Irlanda. O colapso econômico já havia acontecido, o país estava entrando em colapso, mas ninguém sabia aonde chegaríamos ou onde estaria o fim do poço. Nessa época, os sentimentos eram como os de um romance. Eram dias repletos de história. E então, no meio disso tudo, começou a nevar, e o país por algum tempo se tornou belo. Era o momento de graça que eu queria captar: um momento benfazejo.

A propósito, como escolheu o tema do livro?

O Encontro foi publicado em 2007, quando o boom chegava às raias da loucura. É um livro triste e as pessoas se queixaram que eu deveria escrever sobre dias melhores. Então procurei os dias melhores, quando o país, na realidade, dançava à beira do precipício. E fiquei investigando a respeito da negação e da felicidade. O adultério se enquadra perfeitamente nestas duas coisas.

Por que decidiu que a personagem Evie tinha epilepsia? Por que não sabemos como será o fim?

As crianças são tão novas, têm tanto frescor; ficamos horrorizados quando elas sofrem. Parece algo contra a natureza. Imaginamos que sua doença crescerá com elas e, de fato, não temos a menor ideia de onde vai acabar. Há uma terrível perda da inocência quando uma criança fica doente, e uma terrível ansiedade - mas esta ansiedade é apenas uma versão aumentada da ansiedade que os pais sofrem cada vez mais, no mundo ocidental: o fato de terem recebido uma criança perfeita, e o medo de deixar que ela seja destruída, de uma maneira ou de outra.

"Sem Evie, nada disso teria acontecido", diz Gina. Ela quer dizer que Seán e Aileen não teriam se separado?

Talvez ela tivesse isto em mente, quando não há crianças envolvidas, o sexo é apenas sexo.

A senhora tem o dom de escrever grandes diálogos, o que parece ser uma qualidade irlandesa.

A tradição irlandesa foi por muitos séculos a narração oral. Os escritores irlandeses gostam da voz humana; sua textura, a comédia e a tendência a enganar a si próprios. Gosto da maneira como as pessoas falam: sua fala é como o canto dos pássaros, muito mais bonita do que precisa ser.

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