Valores ocidentais

Na primavera do ano passado fui visitar uma amiga francesa em Dijon, aonde eu só tinha ido uma vez, em 2002. Ao sair da estação de trem, reconheci-a de imediato. O tempo não parecia ter sido tão cruel com ela, como fora comigo.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2011 | 00h00

Na tarde desse sábado, depois de uma conversa sobre oito anos de uma amizade mantida por cartões-postais, andamos pelas ruas do centro histórico e visitamos o mercado, a catedral e outros edifícios que sobreviveram às guerras. À noite, antes de voltar para o hotel, ela perguntou o que eu ia fazer na manhã do domingo. Disse que ia alugar um carro para visitar dois ou três vilarejos da Côte d"Or.

Podemos ir juntos antes do almoço, ela sugeriu. Às 10 horas tenho um encontro na casa de detenção. Queres ir comigo?

Aceitei o convite. E embora o cárcere seja sempre um suplício, fiquei impressionado com a qualidade das instalações, com a limpeza do refeitório e com a biblioteca. O projeto circular do presídio parecia um pan-óptico inspirado no desenho de Jeremy Bentham, um inglês que, no fim do século 18, desenvolveu esse conceito de organização espacial, analisado por Foucault em seu livro Vigiar e Punir. As celas contíguas convergiam para um círculo central, onde ficava o pátio. Do alto de uma torre, olhos invisíveis de homens armados vigiavam os detentos.

Quando minha amiga encerrou a conversa com um prisioneiro, eu disse que esse presídio me fizera lembrar, por contraste, dos presídios brasileiros. Mencionei o antigo presídio São José, em Belém, que eu visitara em 1976 e de onde eu tinha saído deprimido com as humilhações a que eram submetidos os detentos. Um dos carcereiros me contara, rindo, que despejava soda cáustica no chão das celas, "só pra esfolar os pés dos animais".

Vi o filme sobre o massacre do Carandiru, ela disse. É uma história terrível. Não menos execrável é a impunidade dos criminosos...

Ela me levou para ver uma exposição de fotos tiradas em junho de 1944, logo após a retirada dos nazistas de Dijon. As imagens eram aterradoras: escombros de edifícios, crianças órfãs, soldados mutilados e franceses que haviam colaborado com o Exército alemão. Um desses traidores fora linchado pela multidão e depois pendurado numa rua do centro da cidade.

Ficamos mais de uma hora na sala da galeria, observando imagens sombrias em preto e branco, e lendo textos que historiavam a ocupação da Borgonha pelo Exército alemão. Não sabia que Klaus Barbie tinha "trabalhado" em Dijon, pouco tempo antes de se tornar o carrasco monstruoso de Lyon.

Minha amiga contou que sua mãe perdera um irmão numa batalha em Tarbes, e que cinco meses antes da ocupação de Dijon, seus futuros pais fugiram dessa cidade e refugiaram-se em Marselha, onde se conheceram e casaram.

Por muito tempo, ela disse, meus pais não conseguiram dizer uma única palavra sobre o passado, e eu cresci ouvindo histórias de horror de outras pessoas, mas não deles. Eu e meu irmão nos formamos em Direito, e ele, quatro anos mais velho do que eu, dizia que, desde a época do liceu, desconfiava do belo e edificante discurso sobre os "valores ocidentais".

Saímos da galeria e andamos devagar até a Rue de la Liberté; antes de entrarmos no carro, ela apontou para um hotel grandioso e disse que o alto comando nazista havia morado lá.

Valores como justiça, liberdade e dignidade não são ocidentais ou orientais, nem dependem de uma religião ou crença, disse minha amiga. São apenas valores humanos, mas a história da humanidade é uma sucessão interminável de calamidades e injustiças. Meus clientes são jovens franceses e imigrantes, todos desempregados. Depois de conhecer a vida deles, tento entender o nosso tempo, que não me orgulha nem um pouco. A maioria das pessoas vê esses desempregados e drogados como seres maléficos à sociedade. Eu os vejo como jovens sem qualquer perspectiva de futuro, derrotados antes mesmo de entrar na dança da vida. Há quatro anos meu irmão participa de uma associação de advogados que trabalha na defesa de jovens prisioneiros políticos da África e do Oriente Médio; alguns são menores de idade, passam anos na cadeia, à espera de um julgamento sempre adiado, como se fossem réus de um processo absurdo. Ele, meu irmão, é mais pessimista do que eu: só vê obscuridade no tempo presente. Agora vamos visitar teus vilarejos da Côte d"Or.

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