Valência destaca arte ibero-americana na Europa

As relações entre o Brasil e Valência, na Espanha, já vêm sendo estruturadas há quase uma década e, em se tratando do segmento cultural, agora, com a realização da mostra Encontro entre Dois Mares - Bienal de São Paulo-Valência, inaugurada na noite de quarta-feira, 28, na cidade espanhola e que ficará em cartaz até 17 de junho, a idéia que fica é a de que o governo valenciano quer realmente apostar e dar mais passos concretos nessa parceria. O "orçamento artístico" da exposição, como diz o coordenador-geral e mentor do evento, o espanhol Amador Griñó, foi de 3,5 milhões de euros, mas ele diz que isso por enquanto é pouco, que a mostra, que se espalha pela cidade com cinco segmentos em três espaços (Centro del Carmen, Nave Segunto e Universidade de Valência), reúne 133 toneladas de obras de mais de 200 artistas, é apenas uma criança que começa a engatinhar e falar suas primeiras palavras. Mas, ainda usando essa figura de linguagem, Griñó espera que essa criança possa crescer e, quem sabe, se tornar um "adulto educado". Seu objetivo falado (nessa época dos discursos) é o de transformar Valência na vitrine da arte ibero-americana na Europa. Griñó, responsável pelas relações internacionais do consórcio de museus, iniciativa da Generalitat Valenciana - Secretaria de Cultura, Educações e Esportes de Valência, está em diálogo permanente com instituições e personalidades brasileiras há tempos. Ele conta que a própria Secretaria de Cultura de Valência queria realizar uma bienal diferente este ano e um diferencial possível foi o de concretizar esse seu projeto de promover um "encontro entre dois mares", um programa fixo entre a ponta da península ibérica e a América Latina pelo vetor da arte contemporânea (e fugir do caráter "antropológico"). "Mas não se pode falar em arte ibero-americana excluindo a Bienal de São Paulo. Há mais de meio século ela era a única fonte de informação sobre a arte na América do Sul e Latina, hoje temos a internet", diz Griñó. Dessa maneira, a Bienal de São Paulo foi convidada a aparecer como uma parceira de honra e comparece tanto no título do evento como fisicamente por meio da mostra Luz ao Sul, no Centro del Carmen, com curadoria de Agnaldo Farias e Jacopo Crivelli Visconti. Luz ao Sul não é, nem pode e nem quer ser, como diz Farias, um resumo da história da Bienal de São Paulo, mas uma amostra da voz da instituição brasileira, "mais alternativa e experimental do que a de Veneza e que serviu de plataforma para artistas importantes". Nesse sentido, Luz ao Sul reúne uma seleção de obras de 17 artistas, tanto brasileiros - entre eles, Carmela Gross, Nelson Leirner, Nuno Ramos e Waltercio Caldas - como estrangeiros - León Ferrari, Eugenio Dittborn, Luis Camnitzer e Alberto Baraya. Quer fugir do estereótipo do exotique brasileiro, da arte de raiz e apresentar temas contemporâneos por meio de obras que tratam de "linhas de forças" como linguagem, discurso de poder e cotidiano. Ao lado de Luz ao Sul, no mesmo Centro del Carmen, está a mostra Áfricas-Américas. Encontros Convergentes: Ancestralidade e Contemporaneidade, com curadoria do brasileiro Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro-Brasil em São Paulo. A montagem, que funciona muito bem, é ao estilo já peculiar e cenográfico de Araújo, com uma reunião de peças de raiz africana indígenas, de Bispo do Rosario, da cultura popular (há também uma sala, curada por Janete Costa, com obras do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro) e contemporâneas (até mesmo expressões com raiz no grafite de Kboco, por exemplo) tudo ao mesmo tempo. "É uma exposição que trata da arte pela via ancestral, do imaginário que perpassa o ciclo da escravidão, do inconsciente coletivo, de diversos laços", diz Emanoel. Essas são as duas mostras com mais peso em se tratando do Brasil, mas mesmo em outras exposições que formam a primeira edição de Encontro entre Dois Mares, os brasileiros comparecem como em Outras Contemporaneidades, com curadoria de Ticio Escobar e Ken Power e instalada na Nave Segunto, espaço cultural a 30 km de Valência, onde funcionava uma siderúrgica. Encontro entre Dois Mares ainda agrega as mostras Anamnesi, também na Nave Segunto, sobre a arte emergente espanhola, e Jordânia: Interculturalidade e Tolerância, na Universidade de Valência, com obras de artistas jordanianos. Ao olhar tudo, fica uma pergunta: o que é arte ibero-americana hoje em dia? Melhor e mais correto talvez seja pensar que se trata, na verdade, de uma grande mostra de arte contemporânea, que em momentos promove diálogos entre seus segmentos e por vezes não. A repórter viajou a convite da produção da mostra

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