Vale tudo, menos se envolver com a estagiária

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h07

JJJJ ÓTIMO

JJ REGULAR

Qualquer dos longas anteriores de George Clooney como diretor - mas especialmente Boa Noite, Boa Sorte - era melhor do que o quarto que ele assina, agora, atrás das câmeras. Tudo pelo Poder é razoável como thriller e um tanto decepcionante como tentativa de expor/entender o universo da política. O próprio Clooney faz o candidato progressista, Ryan Gosling é seu jovem assessor.

A plataforma de Clooney, o candidato, é um pouco aquela que Clooney, o ator, estaria disposto a endossar. Nas eleições presidenciais que encerraram a hegemonia republicana - e lançaram a pá de cal na era George W. Bush -, ele fez profissão de fé democrata e liderou o apoio de Hollywood à candidatura de Barack Obama. George Clooney não é só bonito e talentoso - mas ele é melhor como ator em Os Descendentes, o novo Alexander Payne, que deve estrear em janeiro. Ele também defende as boas causas em Tudo pelo Poder.

O problema de Clooney, o candidato, é seu assessor, que não resiste a um rabo de saia e nisso se aproxima de Bill Clinton, que, com certeza, foi um dos modelos para a discussão política do filme. Outro foi o eterno John F. Kennedy, o mais aristocrático - apesar do emblema democrático - dos presidentes norte-americanos. Kennedy tinha fama de priápico, Clinton enrolou-se com uma certa Monica Lewinsky, você deve se lembrar do affair. Gosling envolve-se com a estagiária. Nas discussões entre Clooney e ele, fica claro que se pode roubar, fazer a guerra e aumentar impostos, mas não se envolver com a estagiária.

Como olhar sobre os bastidores da política - os 'assessores' mandam tanto ou mais que os candidatos -, Tudo pelo Poder é um pouco sobre a hipocrisia sexual que, na política dos EUA, termina dando as cartas. Os grandes partidos - e os políticos profissionais - morrem de medo do eleitorado conservador do meio-oeste. O curioso, ou o paradoxo de Tudo pelo Poder é que o filme, ao mesmo tempo que critica o affair com a estagiária, esboça uma situação de homoerotismo - e entre dois atores tão charmosos e viris quanto Clooney e Gosling.

Tudo pelo Poder chama-se Ides of March no original e os idos de março referem-se à peça clássica de William Shakespeare, Júlio César. A pitonisa adverte César de que precisa tomar cuidado com os perigos que os idos de março representam para sua vida. Na peça, César é morto pelo filho adotivo, Brutus. No filme, Morris, o político, é golpeado de morte (nas ambições presidenciais), pelo assessor.

Nas sucessivas entrevistas que tem dado para promover seu filme, Clooney tem dito que deveria realizar Tudo pelo Poder há quatro anos, em 2007. Naquele momento, ele recuou porque a história lhe pareceu inapropriada para o momento histórico que a 'América' vivia. Obama representa a esperanças e o tema de Tudo pelo Poder é o cinismo que domina a política. Agora, face ao desencanto provocado pela administração de Obama, a história voltou a fazer sentido. É assim desde César e os idos de março. Tudo pelo Poder é o mais desencantado - amargo? - filme de George Clooney como diretor. O desencanto maior é porque o cineasta se apega a um cinema mais convencional. Não inova, talvez porque o background já lhe pareça explosivo, para ficar insistindo também numa linguagem mais ousada.

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