Vale Tudo

Na abertura, Gal Costa canta ‘Brasil’, de Cazuza. Não poderia haver trilha melhor

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2020 | 03h00

Já ouvi muitos apontarem Vale Tudo como a melhor telenovela exibida no Brasil. Estreou há pouco no on demand (Globoplay), virou cult, e não consigo parar de assistir. É um incrível exercício de antropologia social.

Naquele tempo, 1988, novelas duravam oito meses, não tinham concorrência da TV a cabo, streamings, internet, redes sociais, celulares. Nem fax existia. Elas reinavam nos lares brasileiros. 

A reexibição no Canal Viva foi um furor, e levou o canal a índices de audiência vívidos. Até as ombreiras sofreram um revival na moda. Sofrer é o verbo apropriado para designar o esquisito enchimento nos ombros. 

Sei que o fim do espartilho foi para levar mulheres às fábricas de armamento e facilitar a ralação nas linhas de montagem. As ombreiras? Começaram nos anos 1940 onde tudo começava: Hollywood. O mundo estava em guerra, homens e mulheres precisavam aparentar ser valentões, destemidos. É minha interpretação. 

Penso em Lauren Bacall, Errol Flynn, Rita Hayworth, Gary Cooper, no baixinho Bogart, vejo ombreiras. Como Rick peitaria os nazistas em Casablanca com ombrinhos fracotes? O que seria do ator medíocre Ronald Reagan sem elas?

Penso em Grace Jones, David Byrne, Melanie Griffith e Uma Secretária de Futuro, vejo anos 1980, vejo ombreiras, que voltaram com tudo justamente na Era Reagan. “Para dar mais poder às mulheres no escritório, nesse up da identidade social feminina”, me disse a filósofa e figurinista Silvia Feola, em casa conhecida como mãe dos meus filhos. 

As mulheres deixaram de ser telefonistas e secretárias, passaram a chefiar. Surgiram as executivas de terno com ombreiras. Não em Vale Tudo

Vejo Vale Tudo, vejo ombreiras, calças acima do umbigo, franjinhas, suspensório, nenhuma executiva, algumas secretárias do passado, mulheres procurando marido, e uma herdeira dona de tudo que não trabalha. Que, aliás, morre com um tiro no peito. Quem a matou virou suspense nacional durante dias. O capítulo da sua morte, um dia antes do Natal, teve 81 pontos no Ibope.

Um personagem quando está entediado, surpresa, lê um livro. O filho desocupado não sai do cinema. Cinema era para desocupados. O pai acha que é gay, porque gosta de cinema e ouvir música clássica com um amigo no quarto.

Só se fala em dinheiro. O Brasil atravessava hiperinflação e moratória, um câmbio artificial, muito contrabando, numa economia protecionista destroçada depois de anos de ditadura. Era uma terra de instituições falidas, de pequenos golpes, sem lei, em que valia tudo. Difícil encontrar um honesto (a premissa da novela). 

O presidente fora eleito indiretamente. Aliás, morrera sem tomar posse, um capítulo chocante da real tragédia brasileira. A Constituição, aprovada em outubro, no meio da novela. Em que praticamente todos são vilões, uma característica da genial dramaturgia de Gilberto Braga, de personagens inesquecíveis como a alcoólatra Heleninha (Renata Sorrah), a malvada Maria de Fátima (Glória Pires), a mala Odette Roitman (Beatriz Segal), o pilantra de colarinho branco Marco Aurélio (Reginaldo Faria), o michê biltre César (Riccelli).

Na abertura, Gal Costa canta Brasil, de Cazuza. Na trilha, Faz Parte do Meu Show e Pense e Dance, do Barão Vermelho. Cujos vinis da trilha nacional e internacional costumavam ficar entre os discos mais vendidos do ano.

“Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil, qual é o teu negócio, o nome do teu sócio, confia em mim. Grande pátria desimportante...” 

Não poderia haver trilha melhor para detectar o ânimo em que estávamos. Os homens, como Antônio Fagundes, apareciam de sunga. As mulheres não tiravam a camisa. Uma tórrida cena de sexo: César e Maria de Fátima se abraçam de roupa no chão e se beijam. Só. Mas no chão! 

O autor foi obrigado a dar um fim no casal de lésbicas, matando uma delas. Tinha censura ainda na híbrida democracia brasileira. 

A Globo mandaria bem se escalasse um editor para tirar a abertura de um minuto e as chamadas. Até meu filho de 6 anos reclamou, rindo: “De novo essa música!”. Aliás, suas observações eram as melhores: “Todas as casas são escuras como cinema”. As câmeras que eram analógicas. 

A TV era um utensílio na sala. Toda família via junta. A mocinha Solange (Lídia Brondi) pergunta se deve ceder na primeira noite, já que quer uma relação “mais séria”. Será que hoje, cinquentona, está no Tinder? 

Usa-se cheque, passa-se bipe, o monitor é fósforo verde. Ibrahim Sued, que aparece, é o “must”. O mais maluco é que o discurso de indignação é contra os marajás, palavra sempre repetida. No ano seguinte, elegeriam o caçador de marajá, Fernando Collor. Ilusão...

“O País já foi à falência econômica... De uma maneira ou de outra, nesta terra todo mundo é corrupto, porque você aceita como natural. A corrupção é uma bola de neve”, reclama o avô de Maria de Fátima. Em seguida, a emissora estrearia outra novela, O Salvador da Pátria. E a fábula do país do futuro continua como ombreiras: é apenas espuma.

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