VALE NADA QUANDO A VIDA NÃO

Diretor quer compreender o passado da Rússia para entender o presente

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2013 | 02h11

Festival de Cannes 2012 - o russo Sergei Loznitsa volta ao maior evento de cinema, após Minha Felicidade, de 2010, e apresenta Na Neblina. O novo filme do chefe de fila da nova geração do cinema russo prossegue com o questionamento moral do anterior, que se passava no pós-comunismo. Loznitsa projetava uma visão aterradora do país. Em Na Neblina, ele viaja à 2.ª Guerra, na qual se encontra, segundo acredita, o nó górdio decisivo para a compreensão da antiga URSS. O que ocorreu com a Federação durante a resistência ao nazismo teve um efeito extraordinário na mentalidade russa.

Festival de Berlim, duas semanas atrás. Boris Khlebnikov mostra um dos melhores filmes do evento - A Long and Happy Life. Bebendo na fonte do western, ele conta a história de um herói solitário que é desertado pelos companheiros e pega em armas contra os representantes do banco, cujos juros escorchantes levaram ao naufrágio do que seria um projeto coletivo. Khlebnikov, ao mostrar o capitalismo selvagem que se instalou na Rússia - e a proletarização de camponeses destituídos de suas terras -, quis ser social, mais que político. "Sergei (Loznitsa) é mais político que eu", compara. "Não quero insinuar que fazemos um cinema geracional. Cada um faz a sua parte, tenta dar um testemunho."

Loznitsa esteve no Brasil em outubro, participando da Mostra. Ele se baseou num romance de Vasily Byrkov para tratar de um assunto nunca muito bem resolvido no imaginário dos russos. O país resistiu ao avanço dos nazistas e a resistência de Stalingrado, naquele inverno, foi um epopeia que o cinema tentou retratar diversas vezes - foi o projeto que Sergio Leone, morto prematuramente, deixou em suspenso. "Não se pode entender o presente sem compreender o passado. A guerra sempre foi tabu na antiga URSS, houve uma resistência muito forte, mas muita gente transigiu com o ocupante nazista. A guerra nunca me interessou pelo heroísmo. Busquei no livro de Byrkov o avesso do heroísmo, a coisa mais cotidiana. Meu personagem, perdido na neblina, é um homem suspeito de colaborar com os nazistas. E, por isso, dois integrantes da resistência são destacados para matá-lo."

Loznitsa começou a fazer cinema em 1996, no pós-comunismo. Quando se formou em cinema, a situação era difícil para jovens diretores interessados em se iniciar na ficção. Havia mais facilidade para jovens documentaristas e ele se tornou um. Os mais de dez anos em que fez documentários foram decisivos em sua formação artística e humana. Sua ficção - Minha Felicidade e Na Neblina - é impregnada pelo realismo do documentário. "O desafio de fazer cinema é transformar em reais personagens e situações que precisam ganhar vida ao sair do papel."

O cinéfilo não se esquece do extraordinário plano-sequência em que a câmera acompanha o caminhoneiro de Minha Felicidade na pequena cidade, atravessando a feira. Existem cenas muito elaboradas dentro da cabana em que o novo protagonista de Loznitsa é acuado por seus executores, mas a melhor parte do filme passa-se na floresta, na neblina, quando a natureza intervém no drama. Lá pelas tantas, o herói carrega um homem ferido - e ele vira um peso morto. A situação repete um filme famoso de Nicholas Ray, Amargo Triunfo, com Richard Burton. "Não foi uma referência", garante o diretor.

Em matéria de plano-sequência, Loznitsa foi muito bem servido por seu operador, o mesmo Oleg Mutu que fotografou Além das Montanhas, de Cristian Mungiu (em cartaz na cidade). O visual é rigoroso, o filme não tem música para sentimentalizar as situações. Para Loznitsa, o que interessa é a discussão moral. "A neblina possui uma dimensão simbólica, que cabe ao espectador decifrar ou não. A moral é o objetivo. Como se passa do mundo comunista para o capitalista, como se muda tão radicalmente? A ética era importante como resistência ao totalitarismo. E, hoje, nesse mundo onde tudo é válido em nome da ganância, pensar de maneira lúcida é mais importante ainda", acrescenta.

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