Valcazaras mergulha na obra de Fernando Arrabal

A loucura persegue Luiz Valcazaras. Ou será o oposto? Autor e diretor do monólogo Anjo Duro, interpretado por Berta Zemel - por meio do qual levou ao palco um pouco da vida e do trabalho da psiquiatra Nise da Silveira -, Valcazaras mergulha agora na obra de Fernando Arrabal. "Ele dá corpo às neuroses, trazendo-as para a cena", afirmou o diretor durante um ensaio da peça Fando e Lis, na cidade de Londrina onde o espetáculo estréia no dia 6.Foi o sucesso de Anjo Duro - a grande surpresa do Festival de Teatro de Curitiba no ano passado - que estimulou os atores do Grupo Boca de Baco, de Londrina, a convidar Valcazaras para a direção do espetáculo. Com 11 anos de existência, sempre sob direção de André Lopes, o grupo, atualmente formado por cinco atores, tem sete montagens no currículo. A mais recente, Abajur Lilás, estreou em 1998 e mereceu a aprovação do dramaturgo Plínio Marcos, que passou duas semanas na cidade a convite da companhia.Se ainda há quem duvide da existência de bom teatro fora das grandes capitais brasileiras, vale ressaltar que Londrina abriga um dos mais importantes festivais de artes cênicas do País, o Festival Internacional de Londrina (Filo), evento que certamente fertiliza o panorama teatral na região. Tanto que a cidade é o berço de companhias premiadas como o Armazém, dirigido por Paulo Moraes, e Cemitério de Automóveis, de Mário Bortolotto, atualmente instaladas no Rio e em São Paulo.A julgar pelo ensaio presenciado pela reportagem durante a última edição do Filo, em maio, a encenação de Fando e Lis promete um ótimo nível de qualidade artística. Curiosamente, Valcazaras preparava a montagem de outra peça de Arrabal, O Arquiteto e o Imperador da Assíria, quando recebeu o convite do grupo que preparava o projeto para captar recursos por meio da lei municipal de incentivo à cultura. "A gente recebe muitos convites assim, mas poucos são aprovados." Não foi o caso e Valcazaras viajou para Londrina em abril, onde encontrou um esquema de produção profissional. "Estou sendo muito bem tratado", brinca.Certezas abaladas - Os atores também estão satisfeitos. "Abajur Lilás representou um salto de qualidade no trabalho do grupo. Foi um marco. Depois disso, sentimos necessidade de trabalhar com um diretor de fora do grupo", comenta a atriz Jackeline Seglin, que interpretou a prostituta Dilma em Abajur Lilás e vai viver Lis na peça do Arrabal. "É muito bom trabalhar com um diretor que transmite confiança e parece saber exatamente o que quer do espetáculo. Por outro lado, ele destruiu muitas de nossas certezas, entre elas a imagem inicial que fiz de minha personagem."Lis é uma mulher paralítica que depende de Fando (Beto Passini) para locomover-se. Num momento, Fando a surra com extrema violência, no outro a acaricia. Aparentemente enternecido, diz que ela é linda e a expõe nua, na estrada, para que os viajantes toquem seu corpo. "Eles mantêm uma relação de amor e ódio, de forte interdependência e extremamente neurótica", comenta Valcazaras. "Não é o texto de Arrabal que mais gosto, mas justamente isso torna a montagem estimulante. Ele estava ainda muito influenciado por Beckett. Além de Fando e Lis há três personagens clownescos. Todos estão indo para a cidade de Tar. Onde fica? Que cidade é essa? Eles não sabem. E obviamente nunca chegam a Tar."Valcazaras ainda ganhou um novo parceiro de trabalho, Marcos Losnak, crítico teatral do jornal Folha de Londrina, responsável pela tradução do texto. "Temos trocado muitas idéias e ele está trabalhando na adaptação da peça, que tem cinco blocos. Dividimos o último em duas partes e trouxemos uma delas para o início do espetáculo. Os três clowns transformaram-se em figuras que remetem a catadores de papel."Não foi só Jackeline que teve suas certezas abaladas. A mesma sensação tem o ator Nivaldo Lima, que está no grupo desde sua fundação e vai interpretar Toso, um dos três andarilhos. "Eu havia desenhado um Toso meigo e passivo na minha cabeça, porque os outros dois brigam o tempo todo e ele não reage. O Luiz destruiu essa imagem, voltei à estaca zero e só agora começo a esboçar outro Toso. Mas ele transmite muita confiança. Pela primeira vez o processo de criação não é sofrido."A dúvida necessária à criação também ronda Paulo Munhoz, intérprete de Namur. "Será que eles são realmente três ou um só?", pergunta-se. "Eu fui observar mendigos e vi inúmeras variações dessa ilusão de Tar. Procurei o comportamento da peça neles e achei gente que briga por um objeto aparentemente insignificante e acredita em histórias para nós absurdas."

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