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Humberto Werneck
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Vala comum

Se alguma coisa falta para comprovar que o cão é o melhor amigo do homem, talvez em breve já não falte. Ao menos na cidade de São Paulo, onde - você deve ter lido no jornal - dois vereadores querem dar aos animais de estimação o direito de serem enterrados na tumba de seus amos. Com o devido respeito: você, vovó, titio e Totó juntinhos no Araçá ou na Consolação.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2013 | 02h08

A ideia é simpática. Ladridos e miados animariam os cemitérios no dia da Ressurreição dos Mortos. E a solidão subterrânea já não precisaria ser total. Mas vejo problemas. Ainda que se trate de criaturas de Deus, será que fica bem acolher bichos sob a cruz de uma sepultura cristã? Quem sabe à cruz se poderia acrescentar algo que indicasse a presença de nossos irmãos irracionais. Um pequeno poste? O projeto dos vereadores não contempla esse importante aspecto.

A novidade me apanhou quando acabara de visitar em Paris um cemitério de animais. Tenho com estes, devo esclarecer, uma relação de respeitosa distância. Platônica, desde sempre: "Esse menino não tem vocação pra animal", disse à minha mãe um velho tropeiro, na fazenda, ao me ver ressabiado ante uns pacatos pocotós. Com o risco de parecer alguém sem coração, hipótese que até meu cardiologista poderia refutar, nunca tive bicho de estimação. Mas não chego a dizer, como Sartre (que também para eles olhava torto): quem ama excessivamente os animais, ama contra os homens.

O que fui, então, fazer naquela antiga ilha que o assoreamento incorporou a uma das margens do rio Sena? Já confessei meu fascínio por cemitérios, e até acabaria num deles, não me houvesse decidido pela cremação, desde que póstuma. Visitar cemitérios tem ao menos este atrativo: a certeza de que não se está ali para ficar. Por ora - ou jamais, no caso dessa funérea arca de Noé encalhada no Sena. Além de cães e gatos, nele jazem aves, coelhos, hamsters, peixes, cavalos, macacos e um veado (assumido, a julgar pelo garbo da estátua que o eterniza entre a bicharada). Só não vi cobras & lagartos.

O Cemitério de Cães e Outros Animais Domésticos pode não ser farto em celebridades como o não menos parisiense Père Lachaise, só de bípedes implumes, mas tem suas estrelas de quatro patas. À sua maneira, V.I.P. - very important pets. Lá estão os ossos do Rintintin. Aiô! Também do Prince of Wales, que "esteve 406 vezes em cena no Théâtre du Gymnase", e do gato Kroumir, literalmente morto de saudade ao perder seu amo, o escritor e político Henri de Rochefort.

Mesmo que não seja de corpo presente, mereceram lapidares homenagens (cenotáfio, aprendi, é o nome do monumento mortuário em que o falecido não está) o são-bernardo Barry, que salvou 40 pessoas e foi morto pela 41.ª, e Moustache, mascote do exército de Napoleão abatido em combate na Espanha em 1811. Desse "herói" se conta que, levado à presença do imperador, ergueu a pata à altura da orelha, numa canina continência.

Também famoso, embora anônimo, lá está uma versão cinófila do Soldado Desconhecido: um "cão errante" que em 1958 foi morrer às portas do cemitério, tornando-se o 40.000.º defunto nele inumado. Seu epitáfio é até sóbrio em comparação com outros, lancinantes, vários deles assinados por "mamãe" ou "mãezinha". O de Bebé, cãozinho "mais humano que os humanos". O gato Ramsés, não se sabe se mumificado, com seus "9 anos e ½ de amor e cumplicidade, mas também de sofrimento". Tamise, cujo "au-au fará falta para sempre". O gato Moumine, "grande amante do queijo". Sophie, cadelinha capaz de "substituir os filhos" que a dona não teve. O cão Emjie, um "coração revestido de pelos, 6 kg de puro amor".

Nenhuma inscrição, porém, me impressionou mais que a do jazigo do cão Dick, cujo dono, em derramada elegia, se penitencia por haver sido por demais severo na educação de seu "único amigo": "Eu deveria ter parado", sangra o amo por detrás das iniciais L.V., "o remorso me invade, me acho brutal, estou sozinho, já não creio em nada". Pensando bem, não poderia algum vereador parisiense copiar, na mão oposta, a iniciativa dos colegas paulistanos, e propor que esse cemitério de bichos possa acolher também humanos, como L.V., escalavrados pela perda de quem mais amavam?

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