Editora Record/Divulgação
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Vainfas e o fim de uma esperança

Historiador lança Jerusalém Colonial, que fala da participação dos judeus nas expedições holandesas no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2010 | 00h00

O historiador Ronaldo Vainfas, que há anos estuda a história da Inquisição, acaba de lançar, na 6.ª Fliporto (Festa Literária Internacional de Pernambuco), o livro Jerusalém Colonial (Civilização Brasileira), proposta ambiciosa de reunir num mesmo volume um ensaio histórico e outro antropológico sobre a participação dos judeus nas expedições holandesas no Brasil, principalmente após 1635, um ano depois que os holandeses conquistaram a Paraíba e enfrentaram a resistência pernambucana.

Vainfas analisa desde a chegada das primeiras levas de migrantes ao fim de uma esperança, a de que seria possível construir uma nova Jerusalém colonial. De fato, Pernambuco testemunhou a construção da primeira sinagoga das Américas, mas os judeus que aqui estavam foram perseguidos pela Inquisição com a insurreição que terminou por expulsar os holandeses do Brasil ou partiram em busca de novos territórios.

Ele conta histórias de reconversão e fala de cristãos-novos que voltaram ao judaísmo, mostrando que mesmo entre judeus prevaleceu um sentimento discriminatório que prejudicou a comunidade dos ashkenazim de origem alemã e polonesa. Os tudescos ou polacos, como os sefardim (judeus ibéricos) chamavam os judeus do centro-Leste Europeu, seus subalternos, eram mantidos a uma certa distância. Segundo o historiador, eles faziam de tudo para se distinguir dos recém-chegados dessa etnia, que acabavam como seus empregados. Ele discutiu o tema ontem, na mesa As Novas Jerusaléns e Sefarad, ao lado do arquiteto José Luis Mota Menezes e do antropólogo Angel Espina Barrio.

A ambivalência identitária é o que mais interessa ao historiador, que falou ao Estado sobre como as autoridades sefardistas se preocupavam com o comércio ilegal praticado pelos ashkenazim (inclusive de escravos). "Os judeus ocupavam lugares-chave no comércio, o que criava tensões, pois os protestantes de Pernambuco eram mais hostis a eles que os holandeses." Os sefardim, que tinha vocação de poliglotas e vinham de uma cultura universitária (cristã), sentiam-se, segundo Vainfas "desterritorializados", a despeito da proteção do governo de Nassau, que ficava do lado dos judeus ibéricos em todos os litígios, até mesmo porque eram eles seus intérpretes junto aos senhores de engenho. Os ashkenazim mal conseguiam se comunicar.

As dificuldades que o historiador enfrenta para pesquisar o assunto é grande. Vainfas diz que os documentos da comunidade judaica que se estabeleceu em Pernambuco "só registram preocupações institucionais e as relações políticas com os holandeses". Ou seja, para eles, o Brasil era apenas uma terra de negócios, de oportunidades, e não a terra prometida. Num país em que imperava a mestiçagem não podia mesmo ser diferente.

Discriminação. Com o primeiro decreto do chefe da insurreição pernambucana declarando nulas as dívidas com os holandeses e judeus, os últimos voltaram em massa para a Europa e o Caribe ou ainda para os EUA, onde fundaram Nova York. Dos 5 mil judeus que chegaram em 1644, apenas 600 ficaram dez anos depois, e logo se reconverteram ao catolicismo, segundo Vainfas. "O impacto familiar foi grande, pois muitas vezes o marido queria ir à sinagoga e a mulher, cristã, não admitia." Ou seja, como se não fosse suficiente a intolerância religiosa dos calvinistas e dos católicos no período holandês, os judeus ainda foram discriminados dentro da própria casa.

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