Vaiado no Rio, Gerald Thomas debocha da platéia

Terminou sob entusiasmadas vaias para o diretor Gerald Thomas a estréia, no sábado, da nova montagem do Tristão e Isolda, de Wagner, do Teatro Municipal. Thomas subiu ao palco duas vezes no fim do espetáculo. A primeira, após a entrada dos cantores e do maestro Sílvio Barbato, recebidos com calorosos aplausos. Na segunda, virou-se para a platéia, abaixou as calças, mostrou a bunda. Parte do elenco deixou o palco. Outros ficaram visivelmente constrangidos, tapando os olhos.Menção honrosa deve ser dada ao elenco, é bem verdade. Com bom desempenho musical, as sopranos Jayne Casselman (Isolda), Mariana Cioromila (Brangania), o tenor John Pierce (Tristão) e o barítono Inácio de Nonno (Kurvenal), entre outros, compraram a idéia proposta pelo diretor e carregaram o espetáculo nas costas. O que incomodou o público na noite de estréia, porém, foram justamente as proposições de Thomas.No palco estão todos os fetiches caros ao diretor, já utilizados à exaustão em outros espetáculos, desde a presença do sexo (uma moça masturbando-se "ilustrou", como se isso fosse necessário, o Prelúdio que abre a ópera) até a crítica ao mundo fashion (enfadonhos desfiles de moda em segundo plano) e ao nazismo (alusões a judeus aprisionados em campos de concentração), retomando a questão do anti-semitismo wagneriano, tema pra lá de discutido. Na concepção de Thomas, Tristão, Isolda e companhia são pacientes do Dr. Sigmund Freud de Vasconcellos, observados enquanto devaneiam em seu consultório na Av. Nossa Senhora de Copacabana, "ou em Viena, no início do século, ou... você decide", diz a projeção no início da ópera.No segundo ato, o consultório reaparece, todo revirado, por causa de um suposto "surto" do doutor, talvez provocado pelo fato de ter ele "aceito Arnold Schoenberg como paciente". O terceiro ato revela o que restou do consultório de Freud de Vasconcellos que, após ter aparecido na ópera inteira consumindo cocaína e fazendo anotações, perdeu todo o seu dinheiro com "...deixa pra lá" - diz a projeção - e tornou-se maquiador de modelos."Não sigo o que o compositor imaginou, porque não me preocupo com isso. Juntei a música de Wagner, um anti-semita, com as idéias de Sigmund Freud, um judeu que mudou o pensamento e a arte no século 20", disse Thomas em recente entrevista ao Estado. O fato, porém, é que sua concepção não convence e nada traz de novo à história de Tristão e Isolda ou à ópera de Richard Wagner. No fim do espetáculo, Thomas parecia mesmo divertir-se com a reação negativa do público. Subiu ao palco com um escudo e uma lança, fazendo alusão às valquírias wagnerianas. Gesto, aliás, também não original, já usado certa vez pelo diretor do Metropolitan de NY, quando teve de anunciar a uma platéia furiosa o cancelamento de uma apresentação de Luciano Pavarotti. Era como se seu objetivo tivesse sido atingido. E, de fato, ele conseguiu jogar Wagner para escanteio e tornar-se o centro das atenções da noite.

Agencia Estado,

18 de agosto de 2003 | 10h30

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