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Vai ter festa

É impossível abrir mão do entusiasmo com a queda no número de casos e de mortos no Brasil da mesma forma que não conseguimos nos livrar do frio na barriga ao observamos a segunda onda na Europa

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 03h00

Parece-me que nós estamos nos preparando para as comemorações de Natal e réveillon como uma espécie de desforra contra a pandemia. É como se pudesse ouvir as pessoas vociferando contra o vírus: “Você me roubou os abraços de Dia das Mães, de Dia dos Pais, de Dia das Crianças, chega. Não vai me roubar mais nada”. No fim do ano vai ter festa.

Eu sei, eu sei. O vírus não está derrotado. Nós acompanhamos as notícias como quem assiste àqueles filmes bem clichês: respiramos aliviados quando o vilão morre, mas no fundo sabemos que basta os protagonistas virarem as costas para o bandido abrir os olhos e partir para uma nova tentativa de assassiná-los. É impossível abrir mão do entusiasmo com a queda no número de casos e de mortos no Brasil da mesma forma que não conseguimos nos livrar do frio na barriga ao observamos a segunda onda na Europa. Trata-se de um risco real que nos aguarda mais à frente. Mas nosso cérebro continuamente nos transmite a percepção decrescente de risco imediato, olhando à nossa volta. A dinâmica das pandemias em ondas ao que parece é em boa parte determinada por essa flutuação, que nos leva a descuidar da prevenção quando o medo diminui.

Então, se já não parece ser viável – nem mesmo saudável, acrescento – tentar impedir as famílias de se reunir para as festas, temos pouco mais de um mês para insistir nas medidas que devemos tomar para fazer esse momento o mais seguro possível.

O cerne da questão é evitar as três principais variáveis associadas à transmissão da covid-19. Ambientes fechados, com muitas pessoas, com contato próximo e prolongado. É um vírus que se pega pelo ar, afinal. É preciso insistir na figura da sala esfumaçada. 

Quando estivermos reunidos com nossos queridos, devemos imaginar como estaria aquele ambiente se todos estivessem fumando. Há espaços para a fumaça se dissipar? Há correntes de ar levando-a embora? O número de pessoas baforando supera a capacidade do local de limpar o ar? Aproveitar nosso verão para deixar tudo aberto ajuda bastante. Será um ano com mais ventilador e menos ar-condicionado.

Tudo isso sem descuidar da transmissão por gotículas, claro. Pense nela como pequenos cuspes que emitimos ao falar. As máscaras reduzem seu alcance, mas devemos nos sentar um pouco mais longe durante a ceia, mesmo que precisemos fazê-la em turnos nos revezando à mesa.

E sim, é possível dar abraços. Abraços mais curtos, talvez. Ambos com máscara, mantendo as faces voltadas para lados opostos sem encostar o rosto nas roupas do outro, sem falar nesse momento. Eventualmente prendendo a respiração nesses breves segundos. É possível até mesmo que os netos abracem os avós – pela cintura, também sem contato de nariz e boca com as vestes. E quem não se aguentar pode até arriscar um beijinho – de máscara, nas costas ou na cabeça.

E – óbvio – quem estiver com febre, tosse, mal-estar ou qualquer sintoma gripal não deve participar desta vez.

Olhando essas recomendações pode parecer complicado levar as pessoas a colocar tudo em prática. Mas é muito, muito mais fácil – e emocionalmente mais saudável – do que convencê-las a pular mais uma comemoração neste 2020 tão duro.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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