Vai passar

Os adultos americanos trabalham cada vez mais e dormem cada vez menos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2010 | 00h00

Os adolescentes passam mais de cinco horas por dia na frente de uma tela.

Nenhuma das duas afirmações é verdadeira.

O Ministério do Trabalho americano acaba de divulgar o resultado da pesquisa anual sobre o uso do tempo. Os americanos andam bem mais dorminhocos do que imaginamos - conseguem faturar mais de oito horas de sono diário -, o que pode ser, em parte, resultado do aumento do desemprego.

Os adolescentes dedicam, em média, uma hora de lazer por dia, num fim de semana, na frente de uma tela. Boa notícia. Até, descobrirmos, na mesma pesquisa, que os jovens de 15 a 19 anos só dedicam, em média, cinco minutos do de um sábado ou domingo à leitura.

A autora Laura Vanderkam, uma especialista em time management (administração do tempo), destaca a importância de conferir a estatística porque temos o hábito de repetir impressões da realidade como sinais de tendências não confirmadas pelos números. Ela acaba de lançar 168 Hours: You Have More Time Than You Think (168 Horas: Você Tem Mais Tempo do que Pensa). Fez inúmeras entrevistas e confirmou uma tendência que não precisa de estatística do governo: nós desperdiçamos mais tempo com as tecnologias que usamos para ganhar tempo. Laura afirma que os americanos empregados jogam fora dez horas por semana surfando a Web ou fazendo telefonemas pessoais no local de trabalho.

Numa conclusão à la Malcolm Gladwell, ela diz que os mais bem-sucedidos são, geralmente, pessoas que têm autocontrole para gerir as 168 horas da semana.

A falta de tempo ou a percepção de que o tempo passou rapidamente e não conseguimos fazer bom uso dele não é nova, mas a obsessão americana com o time management faz sentido quando notamos outro número da pesquisa do Ministério do Trabalho.

Os autônomos fazem parte do trabalho em casa três vezes mais do que os empregados. A migração da força de trabalho para casa é um grande desafio para a produtividade.

O pastor corgi que repousa a cabeça no meu pé enquanto escrevo não tem a menor apreciação pelos prazos de um jornal diário. Quando o seu dono original voltar de férias e vier buscá-lo, hei de recuperar o tempo que emprego em quatro passeios diários com esta criatura adorável. Nem eu acredito no que acabei de afirmar.

Perder tempo é minha especialidade. E me sentir culpada, também, o que acrescenta vários minutos ao desperdício. Certa vez me queixei com um poeta nova-iorquino sobre meu hábito de procrastinar, especialmente quando tenho de escrever. Ele me forneceu o álibi que, como poeta, levava pronto na memória. Você já está escrevendo quando pensa que não está. Apurei o ouvido com a oportunidade de me redimir. E ele recitou o verso:

"Vagueio e convido a minha alma."

Arrolar Walt Whitman como testemunha de defesa me pareceu boa ideia. O verso acima integra a Canção de Mim Mesmo de sua obra-prima, Folhas de Relva.

Concordo que posso começar uma coluna mentalmente no chuveiro. Se isso conta como produtividade, não tenho certeza. Mas devo admitir: minhas horas se escorrem sem a menor disciplina.

O que me impede de desligar a TV e não assistir, pela enésima vez, à reprise de um seriado inconsequente? Por que criar tantas pastas diferentes para a música do iPod? Nem sempre concordo com o argumento da economia de tempo. Tenho certeza de que o café consome várias horas do meu mês. Além de comprar online um grão que vem de Goiás, faço questão de coar o café, quando a maioria dos meus conhecidos aqui usa máquina ou dá um pulo até a esquina para comprar pronto. Mas qual é a graça de tomar um café ruim ou requentado?

Corei de vergonha na semana passada quando, toda prosa, ofereci mostrar a obra de Mark Twain que baixei no iPad para um entrevistado do Sabático. Quando toquei a tela apareceu, não a capa de um livro, mas o Jogo de Paciência, inacabado. É isso que você lê!, exclamou o entrevistado. Balbuciei que sofro de insônia.

O flagrante me deixou contrita. Não joguei mais Paciência online. Pudera. Quando vocês descobrirem quem deu o flagrante, hão de concordar: um vexame.

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