Dolores L. Hamm/Divulgação
Dolores L. Hamm/Divulgação

Vai brincar de guitarra, vai!

Biografia narra os primeiros anos de Jimi Hendrix, o garoto que não podia nem chorar a perda da mãe

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Ele desejava ser famoso, mas era tímido demais para cantar. Quando aceitou a própria voz em 1966, Jimi Hendrix deu o último passo para se consagrar como o maior guitarrista do rock. O mérito se deve a três pessoas. Bob Dylan - a entonação fanhosa era a prova de que qualquer um poderia se candidatar a cantor. Lithofayne Pridgon - negra e sensual, ela foi maternal com Hendrix, que a conheceu no Harlem. E Linda Keith - namorada de Keith Richards, essa jovem se apaixonou pelo guitarrista americano e lhe deu o primeiro ácido. Não fosse o trio, Hendrix teria sido um gênio frustrado.

Essa é a conclusão de Becoming Jimi Hendrix (Da Capo Press, 274 págs., US$ 17,95), biografia escrita por Steven Roby e Brad Schreiber. Baseado em arquivos do FBI, da Justiça e do Exército dos EUA, o livro acompanha o período de formação do instrumentista, morto há três décadas, aos 27 anos.

Filho de família disfuncional de Seattle, o guitarrista perdeu cedo a mãe alcoólatra. Não compareceu ao enterro. O pai o proibira, dando-lhe uísque como consolo, pois um homem afoga o luto na bebida. Flagrado dentro de um carro roubado, Hendrix evitou dois anos de prisão ao se alistar no Exército. A saída de casa se mostrou crucial para o jovem cujos instrumentos tinham sido até ali o ukulele de uma corda e a guitarra precária chinesa.

Morando no Tennessee por conta do Exército, em 1962 ele descobriu a cena fervilhante de Nashville, onde cumpriu à risca o que se tornaria a sua sina - ser admirado e demitido pelas bandas que integrava. Hendrix não aceitava ser coadjuvante. Tocar com Little Richard, Sam Cooke, Ike Turner e Tina Turner não lhe satisfazia.

Em 1965, ele foi para Nova York, onde sofreu preconceito. Segundo os negros do Harlem, Hendrix fazia música de branco e tinha um visual ridículo. Teve melhor acolhida em Greenwich Village, região liberal de Manhattan que Linda lhe apresentou. O sucesso veio no fim de 1966 em Londres. E com ele a tragédia. Em 18 de setembro de 1970, o guitarrista morreu sufocado no próprio vômito, causado pela ingestão cavalar de remédio e vinho. Segundo Steven Roby, porém, o empresário Michael Jeffery seria o responsável pela morte. Autor de Black Gold: The Lost Archives of Jimi Hendrix (ainda sem previsão de chegar ao Brasil), Roby falou ao Estado.

Infância difícil. "Mesmo após o sucesso, ele evitava falar da infância, mas escreveu músicas para a mãe, morta aos 33 anos. O pai criou Jimi e Leon, o irmão mais novo, com pouquíssimo dinheiro. Durante os anos de luta pela sobrevivência, Hendrix encontrou na música a salvação, apaixonando-se pela guitarra, que o ajudou a expressar emoções e frustrações."

Blues como raiz. "Muitos músicos de blues como Albert King, Elmore James e Albert Collins são a fonte de inspiração. As primeiras notas de Voodoo Chile, por exemplo, denunciam a influência de Collins. Quando tocava a guitarra entre as pernas ou atrás da cabeça, Hendrix pagava um tributo aos guitarristas de blues."

Ambições criativas. "Era óbvio, principalmente para os líderes de banda, que Hendrix desejava ser estrela, mas era tímido demais para cantar. Ele não aceitava interpretar a música alheia noite após noite. Com improvisações feéricas e roupas ousadas, roubou a cena de Little Richard e dos Isley Brothers. A sorte foi ter conhecido Lithofayne Pridgon e Linda Keith, que o encorajaram a apostar em um estilo próprio."

Preconceito nos EUA. "Ele enfrentou muita dificuldade por ser guitarrista negro. Poucas bandas eram misturadas, e nelas nunca havia um negro como líder. A norma era: negros tocam R&B e brancos, música pop. Quando os Beatles mudaram a música em 1964, a guitarra tomou o lugar do sax no mundo pop. Hendrix viu aí um nicho. Os EUA não eram tão receptivos quanto a Inglaterra aos guitarristas negros. Foi mais fácil achar o sucesso em Londres."

Ingênuo. "Se a ingenuidade era charmosa para as mulheres, no caso dos negócios ela se tornou uma maldição. Ao assinar um contrato de exclusividade por três anos, recebendo apenas US$ 1, em 1965, ele teve problemas legais que o atormentaram até morrer."

Empresário fatal. "A palavra letal ganhou novo significado com as recentes alegações de que Jeffery teria assassinado Hendrix (fazendo o guitarrista engolir vinho enquanto dormia sob o efeito de barbitúricos). Jeffery montou uma agenda superlotada para a banda Jimi Hendrix Experience: as turnês sem fim e as inúmeras sessões de gravação dissolveram o grupo em 1969. Quando Hendrix formou o grupo Band of Gypsys, Jeffery boicotou o projeto."

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