Vaga de Barbosa Lima gera disputa acirrada na ABL

Todo mundo quer ser imortal. Com a abertura da vaga de Barbosa Lima Sobrinho, morto no dia 16 de julho, aos 103 anos, iniciou-se uma das mais movimentadas disputas na história recente da Academia Brasileira de Letras, a da cadeira de número 6, ocupada pelo jornalista desde janeiro de 1938.São nove postulantes até agora, mas o número pode crescer. As inscrições ficam abertas até 20 de setembro, e a eleição ocorre apenas em 25 de novembro. Há também a possibilidade de composição. Os candidatos, por enquanto, não admitem declinar da candidatura, mas defecções no meio da disputa são comuns nas eleições para a ABL. O pleito não está ainda polarizado entre conservadores e progressistas - e talvez isso não ocorra, pois há nomes fortes no mesmo campo.Alguns membros da instituição vêem o elevado número de candidatos como um sinal de vitalidade e de popularidade da instituição."Você também é candidato?", pergunta, ironicamente, Arnaldo Niskier, ex-presidente da casa, quando é informado do assunto da entrevista. Na sua opinião, quem disputa de verdade a vaga são o advogado Raimundo Faoro, o jornalista Joel Silveira, o filólogo Evanildo Bechara e o publicitário Mauro Salles. Há mais cinco nomes já inscritos, mas com ínfimas possibilidades de vencer: o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, a escritora Yeda Octaviano, o advogado Octávio Junqueira de Mello Alvarenga, o jornalista Virgílio Moretzon e o membro da Academia Piauiense de Letras Júlio Romão da Silva."Nos meus 18 anos de academia, nunca vi entusiasmo semelhante ao que ocorre nessa disputa", diz Niskier. Ele atribui a concorrência à personalidade de Barbosa Lima. "Foi o homem do século no Brasil; quem não gostaria de fazer um discurso de posse sobre ele?" Mas Niskier acha também que a imagem da Academia mudou, cresceu seu prestígio, seu espaço na mídia - em resumo, ela é mais popular.Avaliação semelhante é feita pelo atual presidente Tarcísio Padilha. "Há uma atitude de homenagem a Barbosa Lima, que, aliás, nasceu seis meses antes da própria Academia." Do seu ponto de vista, a casa tem se modernizado nas últimas gestões. "O grande segredo tem sido balancear a tradição, sem a qual a Academia não faria sentido, com a modernidade", diz Padilha, para quem a instituição fundada por Machado de Assis é parte constitutiva do imaginário brasileiro.Para ser candidato, há apenas duas exigências: ser brasileiro e ter publicado ao menos um livro. Mas, como diz o escritor João Ubaldo Ribeiro, "uma coisa é se candidatar, outra é ter algum eleitor".Ubaldo, autor de Viva o Povo Brasileiro, acha que a Academia é muito mais popular do que normalmente se imagina. "Continua a existir uma certa mitologia em torno da Academia", diz, sem revelar seu voto, como todos os outros ouvidos pela reportagem.A popularidade da ABL, no entanto, preocupa nomes como o da escritora Lygia Fagundes Telles, também imortal e autora, entre outros livros, do romance As Meninas e da recém-lançada coletânea de contos Invenção e Memória."Prefiro a Academia mais secreta, mais dentro do espírito machadiano", diz. "Amanhã, uma socialite com nome de tambor resolve se candidatar a uma cadeira; a Academia tem de agregar pessoas que possuem o mesmo ideal: o amor à língua portuguesa, com estilo brasileiro", completa.Discursos - "Sou candidato porque me considero um escritor e sempre quis postular a vaga de um jornalista", argumenta Joel Silveira. Também inclui como atributo de sua candidatura, brincando, a própria idade: "Tenho 82 anos, é uma idade mais que provecta; se for eleito, já levo a vaga junto."Mas, se a eleição fosse hoje, ele reconhece que o nome mais forte seria o de Raimundo Faoro. "Eu tenho uns 8, 9 votos (de 39 possíveis), ele tem uns 20, 21; mas vamos ver como a coisa transcorre." Se Faoro ganhar, "o que seria muito bom para a Academia", afirma, Silveira vai se preparar para uma nova candidatura. "Muita gente que poderia votar em mim já se comprometeu com o Faoro."Sobre a Academia, ele faz discurso: "Ela passou por um processo de renovação formidável." Na sua avaliação, depois da era Austregésilo de Athayde, responsável pelo "pé-de-meia", a instituição ganhou independência. "Não tem mais necessidade nenhuma de bajular o governo, se transformou num órgão vivo de cultura; o antigo clube fechado está em contato direto com o povo."Silveira conta como faz sua campanha. "Tem sido fácil, porque muitos são antigos companheiros de redação, tenho liberdade para ligar e pedir o voto, não preciso fazer aquelas visitas formais." Para quem não é tão próximo, manda seu currículo. O jornalista, que tem 38 livros editados, o último deles A Camisa do Senador (Mauad), mantém-se ativo, publicando em jornais como Gazeta Mercantil e Diário Popular.Na contabilidade do advogado e ensaísta Raimundo Faoro, autor de Os Donos do Poder e Machado de Assis - a Pirâmide e o Trapézio (Editora Globo) e também ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a eleição se parece com a do prognóstico de Silveira: teria 22 votos. Apesar da coincidência, Arnaldo Niskier não acredita que as coisas já estejam tão definidas. "O sujeito promete, mas no meio pode mudar.""Sou candidato porque não tenho vaidade e a vaidade estaria em, podendo ser eleito para a ABL, recusar; como posso estar lá, não me furtei à disputa", diz Faoro. Aos 75 anos, ele afirma que a Academia significa convivência com amigos. "É um lugar para falar de literatura, para deixar a política do lado de fora, como queria Machado de Assis."Mauro Salles, pernambucano, que atuou por anos como jornalista, relaciona os dois fatores - também qualidades de Barbosa Lima - como argumentos para sua candidatura. O publicitário e poeta já distribuiu um texto explicando por que é candidato e, ainda nesta semana, deve iniciar as visitas oficiais de campanha, encontrando-se com o jornalista Roberto Marinho."Vou à luta, sou intenso em tudo o que faço", diz. Salles, autor do livro Recomeço (Objetiva), aponta uma possibilidade de desistir da corrida pela vaga: a de Oscar Niemeyer aceitar concorrer. Na prática, significa que é quase impossível desistir - há anos o arquiteto tem-se esquivado com habilidade da deferência.

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