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Ignácio de Loyola Brandão
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Vácuos que a própria vida preenche

Berizal, Yvonne Fellman e Leyla Parisi. Nenhuma delas conhece a outra, nunca se viram, foram ligadas a mim em tempos diferentes. Há pessoas que surgem, iluminam a cena por um momento e desaparecem. Meio século depois reaparecem. Qual o significado de três reencontros acontecidos em dezembro passado? Acaso, coincidência? Coisas da vida?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2014 | 02h08

Rainha da Babilônia? Berizal vem da adolescência. Loira, esguia, filha do fabricante de um refrigerante tradicional em Araraquara, a Cotuba. Todos achávamos o nome Berizal intrigante, excêntrico. Comentava-se que o nome vinha de uma rainha da Babilônia. Ou de Bizâncio. Berizal, um mistério. Vivia na dela, solitária, sempre vestida de maneira diferente de todas as jovens da época. Na cidade há muitos que ainda se lembram dela, insinuante, sensual, exótica. A certa altura, sumiu de cena, nunca mais tivemos notícias. Passaram 60 anos.

Sensação de uma geração. Quando, começo de 1953, assistimos a Sai da Frente em Araraquara, ficamos (nós, a rapaziada) doidos com Leyla Parisi. Ela virou sensação. Loira, sotaque italianado, roupas de odalisca, pernas sedutoras, contracenou com Mazzaropi em Sai da Frente, comédia da cinematográfica Vera Cruz, direção de Abílio Pereira de Almeida, enorme sucesso de público. Crítico de cinema, escrevi para o estúdio da Vera Cruz e recebi releases e fotos do filme. Publiquei uma reportagem de página inteira, jurei que tinha vindo a São Paulo para entrevistá-la. Morreram de inveja de mim.

Mais tarde eu a vi, rapidamente em Tico-tico no Fubá; e ponto final. A estrela se apagou na galáxia. Por anos, indagava sobre ela, nada. Vim para São Paulo, procurei, pesquisei, nenhuma notícia, diziam que tinha voltado para a Itália. Fui ao Google e me entristeci, li que Leyla tinha morrido. Um pedaço da juventude desmoronou.

Mostrou-me o teatro e a noite. Yvonne Fellman trabalhou ao meu lado no final dos anos 50, início dos 60 na Última Hora. O jornal foi dos primeiros a empregar muitas mulheres. Ela era linda, culta, bem-humorada. Namorava o Flávio Porto, o Fifuca, irmão do Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta. Yvonne cobria teatro, se relacionava com todo mundo, via todas as peças. Levou-me ao TBC e me apresentou Fernanda Montenegro, quase uma menina (e já grande atriz). Víamos todas as estreias em uma época fértil nos palcos paulistanos: Cacilda, Tonia, Natália Timberg, Daversa, Flávio Rangel, Antunes, Zé Celso, Gianni Rato, José Renato, Boal, Cleyde Yáconis, Elizabeth Henreid, Paulo Autran, Celli, Tereza Rachel, Walmor, Ziembinski, Eugenio Kusnet, Ítala Nandi, Célia Helena, Raul Cortez, Jardel Filho.

Yvonne e eu saíamos pela noite, íamos ao Michel, a melhor boate da cidade, do Jimmie Christie, cunhado dela. Michel, a preferida de Sammy Davis Jr., quando esteve em temporada na Record e no Fasano. Meu primeiro livro, Depois do Sol, está dedicado a ela. Então, Yvonne, depois de passar pelos Diários Associados, casou-se com Victor da Cunha Rego, jornalista do Estadão. Após o golpe de 1964 eles se exilaram, viveram em vários países até se instalarem em Portugal. Nunca mais a vi. Quanto a Cunha Rego, morreu há anos.

Pedaços de um mundo refeitos. Dezembro de 2013, fui a Piracicaba a convite do Chico Galvão participar de um debate no Sesc. Assim que entrei, me entregaram um bilhete. Uma senhora de Águas de São Pedro, cidade vizinha, gostaria de falar comigo. Liguei: quem é? E ela: Berizal. Estremeci, gelei. Falamos um bom tempo. Desde que deixou Araraquara e mudou-se para São Paulo, ela se dedicou à moda, foi modelo, estilista, dona de butique na Augusta, viajava para Nova York e Paris, em busca de tendências. Ao chegar aos 80 anos, preferiu o silêncio e a calma do interior, deixou São Paulo. Quando leu nos jornais de Piracicaba que eu estava ali, tão próximo, rompeu o silêncio. Então fiz a pergunta que levou 60 anos para ser feita: Por que Berizal? Ela: "Meu pai viajava com minha mãe, grávida de mim, quando parou à sombra de uma árvore belíssima, segundo ele. Soube que o nome da árvore era Berizal. Deu-me o nome. De uma árvore linda. Nenhuma rainha. Nem imaginava que quisessem saber tanto de mim".

Do João Sebastião Bar ao Balcão. Lá se foram 50 e tantos anos, todas tentativas de contato dando em nada. Semana passada, me ligam. Era Yvonne. Conseguiu meu número por meio de uma amiga, Lucia, minha vizinha na João Moura. Tinha passado muitas vezes pela cidade e jamais conseguiu me localizar. Agora, essa vizinha (que eu não conhecia), nos religou. Depois de 55 anos, nós que nos sentávamos no Gigetto, no João Sebastião Bar ou na padaria Redondo, em frente ao teatro de Arena (não existe mais), meio fuleira, nos sentamos no bar Balcão e durante horas conversamos como se tivéssemos nos deixado ontem. Nós dois mais velhos, porém sem nostalgias. Ela com o mesmo rosto suave, o mesmo timbre no sorriso, nenhuma plástica. Falamos de hoje e do que fizemos e fazemos, sem esquecer a turbulência dos anos 60, o arrocho dos militares, o quanto nos divertíamos no jornal. Um pedaço do quebra-cabeça se ajustou dentro de mim.

Mais um elo descoberto. Na mesma semana em que reencontrei Berizal e Yvonne, recebi a revista Dante Cultural, house-organ do Colégio Dante Alighieri. Folheando descobri que Leyla Parisi não só não morreu, como, aos 83 anos, esplêndida como me disse um de seus filhos, aparece todos os dias para ver como as coisas andam em um restaurante do Itaim, o Spazio Gastronômico, aberto há 20 anos por seus três filhos Ricardo, Francisco e Sérgio. Um dia, ela que chegou ao Brasil com 20 anos, fez dois filmes, (um com Mazzaropi, inaugurando um novo ciclo de comédias), depois se apaixonou e casou. Acrescentou o Parente ao nome, teve cinco filhos. Tocou a vida bem tocada. "Dia desses, venha comer um polpetone com nhoque, com um molho que é receita dela", me convidaram os filhos. Outro vácuo foi preenchido.

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