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Vacina contra a tirania

É difícil viver e trabalhar no século 21 quando a indignação se torna uma força irresistível

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2017 | 02h00

Vamos ganhar dos americanos? Não em tecnologia, saúde, educação ou prosperidade, mas em resistência. A sugestão me foi feita pelo historiador Timothy Snyder, autor do recém-lançado Sobre a Tirania: Vinte lições do Século XX para o Presente. O livro de bolso se tornou um best-seller instantâneo nos EUA, em março. Foi escrito em poucas semanas, entre a eleição de novembro e o Natal. É um manual de atitude e comportamento para resistir ao exercício arbitrário do poder conquistado nas urnas.

Snyder, que conversou com o Estado quando o livro foi lançado no Brasil, sugeriu a nossa vantagem quando expliquei a ele que, como os americanos, os brasileiros viviam sob um presidente cuja prioridade é se defender, não governar. O professor da Universidade de Yale pode não entender bulhufas de Brasil, mas entende muito de fragilidade democrática. É um respeitado historiador do Holocausto, do fascismo e de regimes comunistas da Europa do Leste. “Um polonês saberia o que fazer neste momento. Já os americanos adquiriram a noção de que são virtuosos e sua democracia era para sempre”, disse. Ele acha que os brasileiros, por sua memória fresca do autoritarismo, podem ter mais anticorpos do que os americanos, estes enfrentando um ataque diário e em várias frentes ao sistema imunológico de suas instituições.

Bem que gostaria, mas não sei se posso concordar com o professor em sua torcida pelo Brasil. Um contra-argumento: será que as instituições brasileiras criaram raízes para resistir a esta ventania de juízes fazendo gesto de degola e invocando “ira do Profeta” numa corte federal? 

Desde janeiro, tenho lembrado o primeiro choque da minha mudança para Nova York, na década de 1980. Foi um choque de normalidade e precisei de algum tempo para me acostumar. Sim, a cidade era bem mais violenta, a fila para tirar carteira de motorista infernal e Times Square à noite ainda não parecia uma Disneylândia experimentada com L.S.D. Mas, ao contrário da rotina do Rio de Janeiro, eu podia caminhar para o trabalho sem medo, não me cobravam propina para tirar documentos e os traficantes da noite de Times Square não apareciam no meu bairro para trocar tiros.

Sei que tenho me lembrado da estranha sensação de não ter que me defender constantemente porque reconheci, ao ler Sobre a Tirania, que as minhas defesas baixaram. Por ser expatriada, o desassossego talvez seja maior, já que, quando parti, um general reformado ainda ocuparia o Planalto por mais dois meses.

Quando comparo a cobertura política da imprensa americana à cobertura brasileira, noto que, no Brasil, guardadas as diferenças do nosso pessimismo ibérico, há uma atitude geral de alerta, uma consciência do risco de que o poder possa promover um arrastão na nossa praia. Se tivesse tempo e dólares, gostaria de escrever sobre a demora dos jornalistas americanos em compreender o que estava em jogo, entre o começo da campanha presidencial, no primeiro semestre de 2015, e o trem desgovernado em câmera lenta que assistimos agora. A obsessão com os e-mails de Hillary Clinton foi um sintoma clássico de negação da realidade numa democracia que se vê como imbatível. E há que fazer justiça, o jornalismo investigativo dos EUA, apesar de redações esvaziadas e limite de recursos, voltou a fazer o papel que se esperava dele com brilho.

Não sei se estamos mais vacinados do que os americanos, mas num ponto o desafio é semelhante, não importa se na democracia constitucional mais antiga do mundo ou na fazenda de Gilmar Mendes. É difícil viver e trabalhar no século 21 quando a indignação se torna uma força irresistível em tempo integral. O professor Snyder disse que escreveu o livro, em grande parte, por este motivo. Para que não sejamos vencidos pelo cansaço.

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