Utopia para um mundo avesso a sonhos

Nei Lopes usa sua erudição africanista em Oiobomé: A Epopeia de Uma Nação, obra pautada por fatos históricos e verídicos

Lilia Moritz Schwarcz, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Nei Lopes (1942) é figura de percurso tão dinâmico e original quanto difícil de resumir. Carioca, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFRJ, e colunista do C2+música, ficou primeiro conhecido como sambista e músico, depois como historiador da cultura negra e, na sequência, como escritor. Na verdade, nesse caso, a ordem dos fatores não altera o produto, e não há como saber ao certo o que veio antes e o que chegou depois (mas pouco importa). O fato é que ele é hoje personagem influente na cena cultural, e em diferentes áreas. Na sua discografia constam nove CDs; Nei é autor de 11 livros (dentre eles a Enciclopédia da Diáspora Africana); é compositor dileto da Salgueiro, assim como atuou na função de dirigente da Unidos de Vila Isabel. Isso sem esquecer das incursões no cinema e no teatro.

Como se vê, Nei Lopes são muitos e vários e acaba de lançar Oiobomé: A Epopeia de Uma Nação. Nessa obra de ficção, toda pintada e pautada por fatos históricos e verídicos, Nei usa de sua erudição como africanista que é, e cria uma utopia para nossos tempos pouco afeitos a sonhos e imagens de paraíso terreal. Oiobomé conta a trajetória de uma nação homônima, que teria se instalado na ilha do Marajó nos inícios do 19, e continuaria viva e atuante até os dias de hoje.

A narrativa começa com a fuga do negro liberto Francisco Domingos Vieira dos Santos - mais conhecido como Dos Santos -, o qual, temendo ser associado aos famosos inconfidentes mineiros, e entendendo-se como parte desprestigiada nessa associação de elite, parte para o longínquo e então desconhecido Estado do Pará, onde, com indígenas e quilombolas, fundam, na ilha do Marajó, uma república. O nome Oibomé é, por sua vez, uma homenagem ao império ioribá de Oyó, na atual Nigéria (da onde teria vindo a mãe de Dos Santos) e ao reino de Abomé, hoje Benin, local em que o avô paterno desempenhava a função de ministro do rei.

A saga do livro é quase uma via de ascensão única; uma vez que o reino vai passando pelos diferentes períodos da história do Brasil - a vinda de d. João, a independência, o Império, as repúblicas - sempre intocado e cada vez mais forte e consolidado. Ao final, a ex-república vira uma monarquia constitucional e hereditária, transforma-se no país mais desenvolvido das Américas (tendo descoberto a cura do câncer, da aids e da anemia falciforme), e o mais democrático, uma vez que teria erradicado o analfabetismo, atuado de maneira pioneira na educação, na saúde e no combate a todo tipo de discriminação religiosa ou de orientação sexual.

Leitura de grande interesse, sobretudo para os jovens mais habituados a uma trajetória contada a partir, e sempre, da perspectiva dos colonizadores; Oibomé instiga a pensar numa história vista por outro lado; pelo buraco da fechadura. Pergunta-se apenas por que "o outro lado" é só o outro lado. Existiria sociedade tão perfeita, igualitária e sem tensões? Por que não imaginar que também as utopias podem ser possíveis, para sociedades possíveis? Num mundo tão repleto de ambiguidades e arbitrariedades de toda sorte, como tão bem mostra Nei Lopes, difícil permanecer imune e altivo diante das fraquezas humanas. Em épocas de poucos sonhos de alto alcance, um bom, como esse, vale sempre à pena. Difícil é acordar.

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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