Paulo Pinto/AE
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Utopia imortal

O maestro Rafael Frühbeck de Burgos fala sobre a Nona Sinfonia de Beethoven, obra com a qual abre hoje a temporada da Osesp

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2011 | 00h00

Os braços cortam o ar, como se regessem uma orquestra, enquanto o maestro Rafael Frühbeck de Burgos cantarola, movimento a movimento, os principais temas e melodias da Nona Sinfonia de Beethoven. Ele então, reclinando-se na poltrona de seu camarim na Sala São Paulo, abre um sorriso: "Não lhe parece espantoso que a música mais conhecida e repleta de simbolismos de toda a história seja de um compositor erudito?"

Nascido na Espanha, mas formado na Alemanha, Frühbeck de Burgos - aos 78 anos e tido por parte da crítica como a síntese da tradição germânica com o calor da interpretação latina - chegou na segunda-feira a São Paulo. A partir de hoje, rege a célebre obra de Beethoven à frente da Sinfônica do Estado, em concertos que marcam a abertura da temporada da orquestra, com ingressos esgotados. Antes, em cada apresentação, toca a Fanfarra escrita pelo brasileiro Edino Krieger sobre temas do Hino Nacional Brasileiro.

"É preciso apenas pôr um pouco de ordem", diz ele, enquanto arruma a seleção de camisas no armário do camarim depois do ensaio da tarde de terça-feira. Senta-se, então, e fala rapidamente da peça de Krieger, "muito interessante", e da necessidade de corrigir algumas notas erradas na edição da partitura. "Isso acontece com novas obras, mas depois do computador ficou mais raro. Eu me lembro de tentar, com a Sinfônica Nacional da Espanha, interpretar um dos concertos para piano de Villa-Lobos. Linda peça, mas o material era tão ruim que não conseguimos tocar. E o mesmo me aconteceu várias vezes com obras espanholas também."

A conversa logo chega a Beethoven. É difícil, diz, comentar uma obra como a Sinfonia n.º 9, da qual já se falou tanto - e com enfoques tão variados. "Eu prefiro lembrar uma história", começa. "Hoje é tradição tocar a Nona na noite de ano-novo, mas poucos sabem como isso começou. Foi na virada do século 19 para o 20. Trabalhadores em Leipzig queriam entrar em greve, descontentes com o contexto em que viviam. Mas protestos, naquela época, não eram tão naturais como hoje. E o maestro Arthur Nikisch encontrou uma maneira de dar voz a esses trabalhadores. Programou a sinfonia de Beethoven para o dia 31 de dezembro e formou com eles o coro que entoa o texto de Schiller, pedindo igualdade entre os homens, no final da obra. Foi a maneira encontrada por eles para protestar."

A história dá a pista para uma possível explicação acerca da importância da obra - exatamente a sua mensagem de alegria e igualdade entre os homens, uma realidade que, ainda distante, sobrevive em forma de utopia e, assim, não para de dialogar com o ser humano, época após época. O tema já aparecera em outras obras do compositor. Isso faz da Nona uma espécie de síntese de seu trabalho? "Não acredito nisso", diz o maestro. "Para mim, ela é como um mundo à parte. O primeiro movimento traz essa proposta temática interessante; o segundo é quase demoníaco em seu heroísmo; o terceiro, um trabalho melódico glorioso; e então, o quarto movimento, que se difere dos outros e sugere que algo novo é necessário." A melodia do último movimento, explica, aparecera pela primeira vez na imaginação musical de Beethoven 30 anos antes da Nona, estreada em 1824. "É como se fosse preciso todo esse tempo para que ele pudesse encontrar a maneira ideal de colocá-la no papel. Isso é fascinante."

Versões. Associado à grande tradição germânica de regência, Frühbeck de Burgos passou ao largo nas últimas décadas das pesquisas históricas que buscavam uma maneira "autêntica" de tocar Beethoven, recuperando as técnicas da época em que as obras foram escritas. Não as demoniza, mas as observa com ressalvas. "Uma coisa nós todos aprendemos com esse pessoal: o cuidado com a articulação. Mas, ao mesmo tempo, eles enchem a interpretação de regras e normas, o que deixa tudo muito chato. Tudo bem, talvez eles estejam certos e tudo o mais, mas há uma tradição de 200 anos de interpretação dessa música que não deveríamos jogar fora. E, depois de 50 anos regendo a sinfonia, não me incomodo em dizer que não sei ainda o que é certo e errado ao interpretá-la."

E como vê a ideia, difundida nas últimas décadas, de que as nove sinfonias de Mahler significariam para o século 20 o que as nove sinfonias de Beethoven significaram até então? "Eu adoro Mahler e fui o primeiro a tocar todas as suas obras na Espanha. É claro que ele teve uma evolução enorme desde a sua primeira sinfonia. Mas não consigo compará-lo a Beethoven. No avião, vindo para cá, li um artigo sobre os regentes mais ocupados do mundo. O primeiro é o Valery Gergiev e eu, aparentemente, sou o sétimo. Mas, enfim, o que importa é que eles também elencavam os autores mais tocados. Beethoven está em primeiro lugar, com mais de 50% a mais que o segundo colocado, Mozart. Isso quer dizer alguma coisa. De minha parte, se eu precisasse guardar algumas obras para todo o sempre, seriam a Paixão de São Mateus de Bach, o Réquiem de Brahms e a Missa Solene de Beethoven", diz o maestro, que não esconde também a preferência por Bruckner. "Sua quinta sinfonia é extremamente depressiva, mas acho que seu último movimento talvez seja o mais belo já escrito."

Ao fim da entrevista, o maestro olha para o relógio e pede licença, aliviado. Deixa rapidamente o camarim em busca do carro que o levará de volta para o hotel, a tempo dos jogos de terça da Copa dos Campeões. Precavido, pediu à Osesp que não marcasse nenhum compromisso para o final da tarde de quarta, para que pudesse acompanhar o encerramento da rodada. "Torcedor do Real Madrid, maestro?" "E por acaso existe algum outro time?"

ORQUESTRA SINFÔNICA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Sala São Paulo. Pça. Júlio Prestes, 16, 3223-3966. De hoje a dom. Ingressos esgotados

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