Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Usada por Alvim em vídeo, Cruz de Caravaca chegou ao Brasil por jesuítas

Cruz e originária da cidade de Caravaca de la Cruz, na região de Múrcia, na Espanha; exemplar semelhante existe na redução de São Miguel Arcanjo (RS)

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 19h57

SÃO PAULO - No vídeo que provocou sua demissão, o então secretário da Cultura Roberto Alvim aparece ao centro, de costas para o retrato do presidente Jair Bolsonaro, e faz um discurso com referência explícita ao ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels. Além da fala - alvo de reação da comunidade judaica, líderes políticos, imprensa internacional - outro elemento que compunha o cenário chamou atenção dos espectadores. Uma cruz feita de madeira, com dois braços a mais do que muitos estavam acostumados a ver.

O símbolo usado por Alvim para anunciar o Prêmio Nacional das Artes e reproduzir a declaração de Goebbels é uma Cruz de Caravaca, segundo explica o professor Edison Hüttner, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e especialista em arte sacra Jesuítico-Guarani. Entre os seus significados, estão poder e proteção divina.

A cruz recebe esse nome por ser originária da cidade de Caravaca de la Cruz, na região de Múrcia, na Espanha, e sua história remete à tradição do século 13.

"Em 1232, aquela região era comandada por muçulmanos. Um muçulmano ficou sabendo que havia um padre preso na cadeia e o chamou para rezar uma missa. Quando o padre viu que não tinha uma cruz em cima do altar, disse que não ia rezar", conta Hüttner. "Aí aconteceu o milagre: a cruz chegou carregada por dois anjos."

Segundo o professor, o símbolo não é importante apenas para católicos. "Há características mouriscas e costuma ter caracteres dos pórticos muçulmanos", afirma. "Ela reúne a cultura cristã e muçulmana."

Em versões tradicionais, a Cruz de Caravaca é acompanhada por esculturas dos anjos, um de cada lado. Há variações, como na usada pelo vídeo de Alvim, no entanto, em que os anjos não aparecem.

Após o período da Reconquista, quando os mouros saíram da Espanha, a Cruz de Caravaca teria ficado sob a responsabilidade dos Templários.

Foram os Jesuítas que trouxeram a imagem para o Brasil a partir de 1610, em meio às ações de catequização de povos indígenas. No Rio Grande do Sul, a imagem é chamada de Cruz Missioneira e um exemplar - em arenito e mais de dois metros de altura - orna a redução de São Miguel Arcanjo (RS).

"Lá, todas as pessoas se reúnem em volta da cruz para rezar todos os anos", diz Hüttner.

O símbolo também se assemelha à Cruz de Lorena, na França, que tem origem heráldico - relacionada a brasões de armas e escudos. "Mas as duas cruzes são diferentes. Têm contextos diferentes e únicos."

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