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Uruguaio Joaquín Torres García ganha retrospectiva na Pinacoteca

Exposição mostra trajetória do artista com 150 obras entre 1913 e 1943

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2011 | 03h08

No fim da década de 1920, quando o uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949) viveu em Paris, seu encontro direto com as vanguardas artísticas europeias, especialmente, com o abstracionismo, foi determinante para que ele alçasse o construtivismo simbólico que tornou sua marca. "Podemos admirar um cristal porque é perfeito, mas poderíamos, afinal, amá-lo?", indagou Torres García num dos numerosos debates que participou na época. O neoplasticismo de Mondrian era "puro" demais para o uruguaio. "Ele queria vida e humanidade em suas obras", diz o bisneto do artista, Alejandro Diaz, curador da retrospectiva Joaquín Torres Garcia -Geometria, Criação e Proporção, que será inaugurada amanhã na Pinacoteca do Estado.

É um privilégio ver agora, em cinco salas do museu, uma antologia que coloca de uma maneira abrangente e de certa forma sucinta e precisa a trajetória de um artista que no início de sua carreira se apegou ao classicismo (o interesse pela cultura greco-romana) e depois promoveu o salto gradual e natural para o construtivismo, criando composições de planos, cores e grafismos. A exposição de Torres García, apresentada, anteriormente, na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, chega a São Paulo com cerca de 150 obras realizadas pelo artista entre 1913 e 1943. A mostra, realizada com o Museo Torres García de Montevidéu, no Uruguai, traz pinturas, aquarelas, desenhos, afrescos, colagens, objetos de madeira assim como documentos e escritos do artista - ele criou livros, alguns deles, como teórico de arte.

"A retrospectiva tem uma visada mais rápida pelas primeiras épocas de sua carreira e outra mais profunda do construtivismo", afirma Jimena Perera, também bisneta do artista e diretora, ao lado de Alejandro Diaz, do Museo Torres García. Segundo ela, as obras da exposição pertencem à instituição criada em memória de seu bisavô, mas também a colecionadores da Espanha, França, Nova York e Uruguai.

Síntese. A mostra tem percurso cronológico e se inicia com os afrescos que Torres García criou na década de 1910, obras identificadas como de sua "arte mediterrânea". Em 1894 o artista emigrou para Barcelona, na Espanha, para estudar na Academia de Belas Artes, e foi este um período de interesse pelo classicismo, até 1916. Além de ter trabalhado com o arquiteto Antonio Gaudí na criação dos vitrais da catedral de Palma de Mallorca e na obra da Sagrada Família de Barcelona, Torres García se dedicou a fazer afrescos para outras igrejas. "Foi sua maneira de vincular arte e arquitetura", diz Alejandro Diaz.

Na exposição, ao lado dos afrescos com figuras apoiadas em pedestais e representadas em meio a espaços de colunas greco-romanas, está um conjunto de pinturas e desenhos de 1917, o ano marco de ruptura do artista com o classicismo. Torres García toma a cidade, "fragmentada", como tema de entrada para uma pesquisa mais contemporânea. Barcelona e suas ruas aparecem em telas de uma composição figurativa, porém, "planificada", como descreve Diaz. "Para ele, a obra não podia apenas imitar a realidade", continua o bisneto do artista. São os primeiros passos, mas não ainda o mergulho na geometria. É em 1917 também que Torres García publica o livro Descobrimento de Si Mesmo, justamente nesse período de quebra e transição.      

Antes de se mudar para Paris, o uruguaio viveu, no início dos anos 1920, em Nova York. A metrópole norte-americana ainda foi o assunto das criações do artista, em composições nas quais o grafismo ficou mais intenso e foram incorporados elementos de anúncios, propagandas, letras, palavras. Nos EUA, ainda, Torres García criou os brinquedos de madeira que eram uma experiência de fragmentação de figuras, mas, mais que isso, um meio que ele imaginou ter com esses objetos êxito comercial para sustentar a família. Há algumas dessas peças na exposição.

Por fim, é na França, entre 1926 e 1932, que Torres García viveu a transformação de sua pesquisa artística. Como diz Alejandro Diaz, a relação do uruguaio com Theo Van Doesburg e Piet Mondrian, em 1928, foi fundamental para seu caminho de rumo à síntese. Torres García faz menção às culturas pré-colombiana e africana nas pinturas e objetos criados nesse processo e chega a uma composição pictórica construtivista que se torna um sistema de planos e cores em camadas. Integrados a esse sistema estão símbolos, signos, alfabetos - a forma própria do artista de relacionar o emocional e o racional.

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