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Urnas proustianas

“Vote em Brigadeiro, é bonito e é solteiro”, um slogan da eleição de 1950 que gravei na memória

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 03h00

Tinha em mente comentar a eleição na matriz e suas consequências, mas como a contagem de votos não se definiu dentro do meu prazo regulamentar, por obra de Trumpzilla (que ao tentar melar o jogo não imitou, como disseram, Bolsonaro em 2018, e sim Aécio Neves quatro anos antes), e da constrangedora incompetência do sistema eleitoral americano, resolvi falar das eleições que eu vivi.

Em minha mais remota e vívida lembrança eleitoral, estou sentado no sofá da sala ou na cama, arrumando os “santinhos” que recolhia a esmo nas ruas. Não conhecia os candidatos e os partidos, só de nome ou sigla: PTB, UDN, PSD. Muito criança ainda, apenas me interessavam aqueles pequenos prospectos de propaganda, impressos em papel barato e sem cores, coletados como figurinhas sem álbum ou propósito.

Os slogans e as músicas da eleição de 1950, de tanto ouvi-los no rádio, gravei-os na memória: “Vote em Brigadeiro, é bonito e é solteiro”, o bordão mais divertido; a marchinha da campanha de Cristiano Machado (na voz de Jorge Goulart), ambos concorrentes afogados pela onda getulista. 

O brigadeiro era o Eduardo Gomes, esperança da Oposição udenista, e Cristiano Machado, um mineiro cuja única contribuição à nossa história política foi o verbo que seu sobrenome inspirou. “Cristianizar”: ser abandonado pelo próprio partido em favor de outro candidato, com melhor potencial nas urnas. 

Meus pais não eram contra nem a favor de Getúlio; meu pai, português, nem votava. No primeiro dia de aula, de volta das férias de verão, surpreendi três professoras regozijando-se, sotto voce, com a retorno triunfal de Vargas, que pouco antes, no carnaval, eu celebrara, involuntariamente, cantando aquela marchinha que nos mandava botar o retrato do velho (Getúlio) outra vez no mesmo lugar, isto é, no poder. 

Na eleição seguinte, já menos, mas não muito menos, ignorante, perdi uma aposta com um colega de turma. Ele, embora neto ou sobrinho do marechal Mendes de Moraes, apostava em JK e eu no general Juarez Távora, não por um entusiasmo adolescente pelos “18 do Forte” e pela Coluna Prestes, nada disso, mas simplesmente porque meu contendor já escolhera JK e eu, nascido e criado longe da Pauliceia, só de nome conhecia o tertius da disputa, o governador Adhemar de Barros. 

Nunca paguei a dívida, o vencedor jamais a cobrou, mas não carreguei a culpa por muito tempo.

1960. Último ano do ensino médio. Minha primeira eleição. Havia outro militar na corrida presidencial, o marechal Henrique Teixeira Lott, candidato das esquerdas e dos nacionalistas. Deveria ter votado nele, pela heroica defesa da posse de JK, cinco anos antes, mas cismei que ele era burro, e sufraguei o doido, literalmente varrido, Jânio Quadros. Só não me envergonho disso porque o fiz sem dolo. 

Com o tempo, minha admiração pelo marechal cresceu com mais rapidez que a minha decepção e o consequente desprezo por Jânio. Por mim, Lott seria o Patrono do Exército, não Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias. 

Estranha eleição a de 1960. As seguintes também poderiam ter sido caso tivessem ocorrido, não abolidas pela ditadura militar, por sinal adubada pela inopinada renúncia de Jânio. 

Naquela época, presidente e vice-presidente não formavam uma chapa; era cada um por si e os mais votados assumiam suas respectivas funções. Tal bizarrice explica o inesperado duo Jan-Jan (o udenista Jânio presidente e o trabalhista João Goulart vice) e também a minha, só superficialmente rebelde, preferência pelo gaúcho Fernando “Mãos Limpas” Ferrari, dissidente do petebismo gaúcho, que acabou em terceiro lugar, atrás de Milton Campos, o parceiro natural de Jânio. 

Foi nessa campanha que surgiu o melhor jingle eleitoral de todos os tempos. Composto por Miguel Gustavo e rimando “votar” com Goulart, botou na praça um neologismo (“jangar”) de forte apelo popular, que cantores do rádio, como Jorge Veiga e Dircinha Batista, tornaram imbatível. 

Entre a renúncia de Jânio e o golpe de 64, dois plebiscitos, em abril de 1963, nos condenaram a perturbar o bem-bom dominical para votar contra ou a favor do parlamentarismo (maquiavelicamente tirado da cartola para impedir que Goulart assumisse, legitimamente, a vacância presidencial) e da manutenção do Estado da Guanabara (unidade federativa que substituíra o antigo Distrito Federal, “transferido” para Brasília), esta uma exclusividade carioca. 

A praia estava tão irresistível, no domingo 21 de abril, que mandei meu dever cívico pras cucuias -- daquela vez com dolo. Mesmo sem meu voto, o esdrúxulo Estado da Guanabara duraria mais 12 anos.

Na eleição seguinte, em novembro de 1976, votei em Jimmy Carter. Vicariamente, claro, pois não sou americano. Num voo da Guatemala a Los Angeles, três empresários gringos, possivelmente ligados à United Fruit, grudaram em mim, afáveis, mas tão republicanos que fizeram questão de ir votar em Gerald Ford perto de casa. Passaram a viagem a pichar os democratas e a fazer piadas com Jimmy Carter e amendoim, num clima de já-ganhou exasperante. A vingança demorou, mas veio, anunciada pelo comandante do avião que àquela altura alçava voo de Honolulu a Auckland. Brindei sozinho a volta dos democratas à Casa Branca. Ao acordar, descia em Pago Pago. Ou “Pengo Pengo”, a pronúncia correta, como só então aprendi, muitos anos após ter visto o filme Ao Sul do Pago-Pago. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO

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