Universos poéticos

Com duas mostras na cidade, Olafur Eliasson diz que a arte brasileira se aproxima da sua por fazer "celebração à vida"

MARIA HIRSZMAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2013 | 02h10

Depois de ter ocupado no ano passado três grandes instituições paulistanas com intervenções de grande impacto, o artista dinamarquês Olafur Eliasson retorna ao Brasil com exposições simultâneas em duas das mais importantes galerias do País, confirmando o enorme potencial aglutinador de seu trabalho.

As obras expostas na Galeria Luisa Strina e no galpão mantido pela Fortes Vilaça no bairro paulistano da Barra Funda têm vocações distintas, mas pertencem ambas ao mesmo universo poético, cativando o público com as experiências sensoriais e visuais que combinam elementos da ciência e da ótica, da matemática e do simulacro que notabilizaram Olafur como um dos grandes nomes da arte contemporânea internacional.

Seja ocupando espaços mais generosos e jogos de luz e sombra, como em Your un Certain Shadow - uma das atrações na Fortes Vilaça -, seja nos pequenos móbiles que compõem a série Multiverse 1-10 - um conjunto de estruturas simples construídas a partir da interação entre simples aros de metal, cromados, banhados em bronze ou coloridos, e potentes ímãs, dispostos na grande sala da Galeria Luisa Strina -, o artista procura evidenciar a existência de elementos potentes, porém pouco visíveis de nossa relação com o mundo.

Essas peças relembram pequenas constelações, são como pequenas bússolas extremamente sedutoras que se comportam simultaneamente como modelos fechados sobre si mesmos e polos de energia em interação com outras forças, como a gravidade e as atrações polares. "Adoro a ideia de que a nossa realidade é construída e que podemos alterá-la", afirma o artista em entrevista concedida pouco antes da abertura de suas exposições, na quarta-feira. Ele diz acreditar que existam vários universos em interação e não apenas aquele mais tangível. Nega, no entanto, qualquer caráter místico que possa ser dada a tal declaração. "Vivemos em um multiverso", diz ele, brincando com as palavras, da mesma maneira que explora as possibilidades de encantamento das formas e cores.

A presença de Olafur na agenda de exposições que ocorrem paralelamente à SP-Arte, que atrai um grande número de colecionadores à cidade, é simbólica. E parece indicar uma crescente abertura e expansão do mercado brasileiro, num cenário de crise europeia. O artista desmente, entretanto, a existência de razões meramente mercadológicas para a realização das exposições, que considera como consequência natural de sua presença cada vez mais frequente na cena brasileira. Ele relembra que sua primeira exposição no País ocorreu em 1998, na 24.ª Bienal de São Paulo, com um fascinante e enigmático chão de gelo, instalação que se insere no mesmo contexto de reapropriação de elementos potentes da natureza como as cachoeiras que construiu no East River, em Nova York (2008), ou o gigantesco sol criado na Tate Gallery, em Londres (2003). Ele também possui obra no Centro de Arte Contemporânea de Inhotim e faz parte da mostra The Insides Are on the Outside/O interior está no exterior, recém-inaugurada na Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi.

Segundo ele, as peças menores, que compõem sua primeira mostra comercial no País, fazem parte de seu complexo sistema de criação, que envolve uma ampla equipe de colaboradores e são produzidas de forma concomitante aos grandes projetos institucionais que o notabilizaram, funcionando como laboratórios de experimentação ou trabalhos autônomos. Essa presença cada vez maior na cena brasileira, que acaba de viabilizar sua primeira mostra comercial no País e na concretização de uma parceria entre duas galerias consideradas como concorrentes, também acabou por despertar a atenção de Olafur Eliasson pela produção artística nacional, que afirma ter descoberto nos anos 1990. Segundo ele a arte construtiva e neoconcretista brasileira, com seus desdobramentos posteriores, é muito mais interessante do que o rígido minimalismo norte-americano e se aproxima de sua obra exatamente por propor também não apenas um rigoroso jogo geométrico e formal, mas sim "uma celebração à vida".

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