Universo Rodriguiano

Cleyde Yáconis une-se a Denise Fraga, sob a direção de Marco Antonio Braz, para dar voz às famosas criações de Nelson Rodrigues no recital Elas Não Gostam de Apanhar, série de leituras e projeções que vai ocupar o Auditório Ibirapuera

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2012 | 03h09

Uma menina se apaixona pelo macaco do zoológico. Um homem ama uma prostituta. O escritor relembra o assassinato do irmão. O bizarro se dilui na prosa de Nelson Rodrigues, transformando-se em algo quase familiar. E é sob esse tom tragicômico que se estrutura o espetáculo Elas Não Gostam de Apanhar, que acontece apenas de sexta a domingo, no Auditório do Ibirapuera.

Um dos desdobramentos da Ocupação Nelson Rodrigues, mostra em cartaz no Itaú Cultural em homenagem ao centenário de nascimento do grande dramaturgo, o recital vai unir dois expoentes do teatro brasileiro: de um lado, Cleyde Yáconis que, próxima dos 89 anos (completa em novembro), é uma das damas do palco nacional; de outro, Denise Fraga, atriz que passeia com tranquilidade entre o drama e o humor. "Juntas, elas vão ler e dramatizar textos do Nelson que permitem apresentar sua obra tão essencial", comenta o diretor Marco Antonio Braz, que se transformou no principal artífice das homenagens ao escritor - ele dirige também duas peças em cartaz, Boca de Ouro e A Falecida.

Braz selecionou dez textos rodriguianos, como alguns contos de A Vida Como Ela É, crônicas de Memórias e Confissões e O Reacionário, além de transformar em diálogos recordações de Nelson publicadas em A Menina Sem Estrela e Vestido de Noiva. "Como vivia da escrita, ele tratava de tudo, de futebol a casos da vida, mas sempre com um olhar muito particular", disse o encenador, que pretende tornar ainda mais conhecida a obra de Nelson Rodrigues a partir do espetáculo. E também desmistificá-la.

A começar pelo título do recital, Elas Não Gostam de Apanhar, trocadilho com uma célebre frase de Nelson que o estigmatizou: "Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais. As neuróticas reagem". "Espero amenizar a imagem dele com esse espetáculo que, já adianto, não terá mulheres suburbanas que gostam de apanhar."

De fato, os dez textos que serão lidos/encenados por Cleyde e Denise privilegiam a inteligência daquele que foi autor de uma dramaturgia divisora de águas no teatro brasileiro, ao unir elementos melodramáticos, naturalistas e expressionistas. Com isso, Nelson tornou-se, com o correr dos anos, uma das poucas unanimidades dos palcos nacionais. Sem esquecer do poético, a que deu uma dimensão espontânea, o fanático torcedor do Fluminense nunca esqueceu a corporeidade cênica do drama.

No palco, as atrizes se acomodarão em poltronas - Cleyde vai desempenhar o papel de narrador, enquanto Denise vai dar vida a alguns personagens. Elas estarão sentadas diante de biombos, nos quais serão projetadas fotos e vídeos do dramaturgo, entre elas, a célebre entrevista que Nelson concedeu a Otto Lara Resende, no jornal Hoje, da Globo, em 1977.

Os efeitos multimídia continuam com a exibição das frases lidas pelas atrizes, recurso já utilizado nas atuais montagens do A Falecida e Boca de Ouro. "Como trilha sonora, separei especialmente a que Nelson ouvia quando veio de navio do Recife para o Rio", conta Braz. "Inclusive gravações inusitadas, como a abertura do La Traviata, executada por uma orquestra de bombeiros."

As atrizes estão se deliciando com o trabalho. Na tarde da terça-feira passada, quando se conheceram em um encontro acompanhado pelo Estado, Cleyde e Denise trocaram impressões sobre o dramaturgo, que morreu em 1980. "Fiquei impressionada com os textos autobiográficos, pois são muito lindos e nos permitem entender muitos aspectos de sua obra", comentou Denise, que ainda não montou profissionalmente uma peça de Nelson Rodrigues - apenas encenou A Senhora dos Afogados, montada em sua fase de formação teatral.

Já Cleyde Yáconis tem muita proximidade - na verdade, intimidade - com o texto rodriguiano. Afinal, em 1965, depois de várias atrizes temerem interpretar a prostituta Geni, ela assumiu o papel e Toda Nudez Será Castigada tornou-se um grande sucesso. "Nelson sempre me provocou reações antagônicas", afirma. "De enojada depois de ler uma página, fico fascinada com a seguinte."

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