Universo do autor inspira espetáculos memoráveis

Análise: Jefferson Del Rios

28 de junho de 2012 | 03h10

Durante quatro dias de dezembro de 1965, A Falecida, de Nelson Rodrigues impressionou o público do Teatro Leopoldo Fróes, na Rua General Jardim (demolido). O espetáculo da Escola de Arte Dramática (EAD), dirigido por Antunes Filho, faz parte da história do teatro de São Paulo. Mexeu com o imaginário, a cultura e as técnicas daqueles jovens, dos quais vários fariam carreira. O tipo de exigência do diretor em leituras de apoio, as pressões nos ensaios (ainda são lembradas a meticulosa cena de bilhar e o uso de cadeiras que seriam uma das marcas de Antunes na sua longa viagem para dentro da obra do dramaturgo). Se for para datar, então, será o caso de se dizer que a partir daí, e há quase meio século, Nelson Rodrigues tem sido bem recebido no teatro paulista em toda sua potência dramática.

Montagens menos felizes, algumas más, constituem minoria esquecida. Em 1972, ainda com a EAD, Emilio Di Biasi criou uma bela versão de Boca de Ouro ao transformar um espaço exíguo em um cabaré com mesinhas e pares dançando entre elas. Ampliou o feito ao remontar a peça em 1974, no Teatro 13 de Maio (também extinto). Nelson Rodrigues, que era de pouco viajar, veio do Rio só para essa montagem e a de Bonitinha, mas Ordinária, outra incursão de Antunes Filho no universo do autor de Vestido de Noiva. Nelson, que tinha notória implicância a qualquer liberdade tomada com seus textos, aprovou e retornou feliz. Não viveu para ver como Antunes Filho e José Celso Martinez Correa ampliariam seu universo em abordagens radicalmente distintas que resultaram em espetáculos memoráveis. Antunes buscou os arquétipos que moldam a alucinada humanidade do escritor. Colocou Jung nos enredos de subúrbio. José Celso retomou Boca de Ouro com uma visão sem pecado ao sul do Equador. Carnaval e candomblé. Ambos tomam Nelson como base, sem negá-lo.

A partir dos anos 90, outra geração de diretores entre São Paulo e Rio continua nesse labirinto de obsessões, porém mais centrados nos textos tal como estão (recheados de rubricas autorais). A opção não resultou em estética conservadora ou arqueológica. Ao contrário, revela bastante força interpretativa e beleza visual. Vale lembrar Anjo Negro, de Ulisses Cruz; Álbum de Família e Toda Nudez Será Castigada, de Cibele Forjaz; Vestido de Noiva, de Gabriel Vilella; Dorotéia, Boca de Ouro e A Serpente, de Eloisa Vitz com o Grupo Gattu, e o atual projeto de Marco Antonio Braz em encenar boa parte senão todo Nelson Rodrigues. Como escreveu Sábato Magaldi, o crítico mais especializado no assunto: "Poucos dramaturgos revelam, como Nelson Rodrigues, um imaginário tão coeso e original, e com um espectro tão amplo de preocupações psicológicas, existenciais, sociais e estilísticas".

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