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Universo das mulheres

Mostra na Pinacoteca abrange a trajetória da artista portuguesa Paula Rego

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2011 | 00h00

Temas políticos, a vida das mulheres - incluindo questões como o aborto, a mutilação, o abandono -, o sexo, as tragédias da vida. A figuração narrativa das obras da artista portuguesa Paula Rego, das criadoras de mais expressão e projeção de seu país, giram de uma forma permanente em torno desse círculo denso de assuntos. "É uma produção que ainda insiste no confronto com a imagem, de forma instigante, uma lição para a gente", diz o diretor da Pinacoteca do Estado, Marcelo Araujo, que desde 2007, depois da primeira grande retrospectiva de Paula Rego, no Museu Reina Sofia de Madri, se empenhou em fazer uma mostra abrangente da artista em São Paulo.

Sendo assim, agora, ocupando sete salas da Pinacoteca, a exposição Paula Rego, que será inaugurada amanhã no museu, apresenta a produção dessa criadora em cerca de 130 obras, entre pinturas, desenhos, gravuras e culminando no Oratório, que tem em seu interior bonecos que remetem ao escultórico na obra da artista. Por meio de um percurso cronológico, a mostra, com curadoria do inglês Marco Livingstone, é a primeira antologia de vulto da artista realizada na América Latina, tendo sido exibida antes no México. Insere o público no universo artístico de Paula Rego (hoje, aos 76 anos, vive há décadas na Inglaterra), dos anos 1950 até as suas mais recentes criações.

Fantasias. Desde 1969, a portuguesa participou de três edições da Bienal de São Paulo, sendo que na de 1985 esteve na representação inglesa na mostra, mas só agora é possível o mergulho em suas criações. São as mulheres que estão no centro das obras de Paula Rego, em representações que beiram o grotesco, ressaltam dores, misturam fantasias, perversões e delicadezas e que, em alguns casos, se valem do caricatural. "As pinturas de Paula são realizadas a partir de sua própria perspectiva e de observações do que foi crescer numa cultura na qual as mulheres, não raro, eram subjugadas pela dominância masculina e tinham de encontrar suas próprias maneiras de afirmar-se e até mesmo de planejar sua vingança", analisa Livingstone.

Paula, nascida em Lisboa, foi estudar na Inglaterra, na década de 1950, justamente porque seu pai, de família de classe média alta, não queria que sua filha ficasse em Portugal sob o regime salazarista (1933-1974). E assim a artista, definitivamente, em 1976, fixou sua residência apenas em Londres - mas em 2009 foi inaugurada a Casa das Histórias Paula Rego, um museu dedicado à sua obra em Cascais, em seu país natal.

A persistência da figuração na trajetória da artista portuguesa reforça o caráter forte de suas obras. A escala grande de suas pinturas é, segundo o curador Marco Livingstone - que fez a curadoria da retrospectiva da artista no Reina Sofia e autor de uma monografia sobre ela -, uma escolha pela imposição de uma "presença", de "emoções brutas". De uma forma direta, por exemplo, quando a artista usa o pastel em suas obras de grande formato - a partir de 1994 -, figura e fundo ganham uma intensidade incontestável. "Com o pastel ela controla o desenho, a cor, o peso do corpo", diz Livingstone.

Em um número variado de obras feitas por meio da técnica do pastel, há uma série de "mulheres bestas, selvagens e desenfreadas, como criaturas temíveis e levadas por desejos animais" encorpadas, com músculos, rostos e pernas fortes. Nesses trabalhos, vemos a recorrência da representação de uma mesma figura, já que desde a década de 1990 Paula Rego tem uma modelo predileta para suas obras, a portuguesa Lila Nunes, que foi morar na Inglaterra e trabalhou para a artista como enfermeira de seu marido, o inglês Victor Willing, morto em 1988 devido a esclerose múltipla (ele também era artista). "Não são retratos meus porque não vejo a mim nas obras. Lá estão mulheres com toda sua experiência", diz Lila, que veio acompanhar a montagem da exposição, já que Paula não pôde vir por questões de saúde.

Séries e lacuna. Na primeira sala da exposição está condensado o percurso da artista entre 1952 a 1986, numa seleção de obras que colocam a Paula Rego que ainda não tinha a grande visibilidade de hoje - sua individual na prestigiada Serpentine Gallery de Londres, em 1988, foi um marco. Existe nesse conjunto uma lacuna de sua produção, entre 1966 e o fim da década de 1970, período que a artista preferiu não exibir na mostra por remeter a um momento difícil para ela, com a perda do pai e a doença do marido. Nessa sala estão desenhos e pinturas de traços que remetem a Jean Dubuffet e até aos comics.

Na sala seguinte, a segunda, os destaques da produção da artista - reúne duas obras de impacto, A Família (1988), de ambiguidade sexual, e As Empregadas (1987), sobre certa perversidade. É o momento da "chegada do estilo maduro" de Paula Rego, define o curador. O mesmo segmento inclui uma seleção de impactantes pastel da artista, como Target (1995) e Amor (1995), além de desenhos feitos como esboços para as obras e um excerto de série gráfica do fim dos anos 1980, considerada pela artista um de seus mais importantes trabalhos.

Seguem nos outros núcleos, em forma cronológica, séries conhecidas de Paula Rego, dentre elas, Dancing Ostriches from Disney's Fantasia (com as avestruzes bailarinas do filme), de 1995; uma sobre o aborto, de 1998; e outras que remetem a suas inspirações literárias; e Homem-Almofada, de 2004, "de memória afetiva de seu pai".

Ao mesmo tempo, a Pinacoteca inaugura hoje como parte de seu Projeto Octógono de Arte Contemporânea, com curadoria de Ivo Mesquita, a videoinstalação Polígonos Regulares (1981), de Rafael França (1957-1991).

PAULA REGO

Pinacoteca. Praça da Luz, 2, Luz, telefone 3324-1000. 10 h/ 18 h

(fecha 2ª). R$ 6 (sáb. grátis). Até 5/6. Abertura amanhã, às 11 h.

QUEM É PAULA REGO ARTISTA PLÁSTICA

Nascida em 26 de janeiro de 1935 em Lisboa, Paula Rego foi estudar na Slade School of Fine Arts da Inglaterra, em 1952. Casou-se com o artista inglês Victor Willing, morto em 1988, com quem teve três filhos. Fixou, a partir de 1976, residência em Londres.

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