Unidos pelo Niilismo

Domingo passado, uma dúzia de escritores e poetas russos se juntou numa praça de Moscou para o que chamaram de "marcha-teste". Queriam testar a vigilância e a repressão da polícia a uma passeata do grupo contra o governo cesarista de Vladimir Putin, cobrindo um itinerário, com perdão da palavra, emblemático: da estátua do poeta Pushkin (exilado pelo czar Alexandre I) até o monumento ao dramaturgo Aleksandr Griboyedov (cujas gozações na aristocracia moscovita só foram liberadas pela censura czarista depois da morte do autor).

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2012 | 03h09

A maior surpresa do grupo não foi passar incólume de uma praça à outra, mas a adesão espontânea de 10 mil pessoas, a maioria portando aquele emblema branco que identifica a oposição ao Putin. "Podemos ver por essa adesão em massa que a literatura ainda exerce uma autoridade em nossa sociedade", declarou, inflado de orgulho, o poeta Lev Rubinstein, um dos organizadores do protesto.

Tem sido assim há 200 anos. Os intelectuais se organizam contra a ordem vigente, incandescem a insatisfação pública, são presos, censurados, banidos, fuzilados, viram heróis e depois ganham estátuas, ruas e praças. Começaram com os czares, prosseguiram com Stalin e seus epígonos, e agora, ainda expostos a uma sociedade espiritualmente feudal, enfrentam mais um autoritário Vladimir.

Foram eles que inventaram a palavra intelligentsia, contemporânea do levante dezembrista de 1825, quando poetas românticos, aliados a militares e servidores públicos, conspiraram em vão para derrubar o imperador da vez (Nicolau I) e modernizar o império, com ideias importadas da Europa Ocidental, sobretudo da Alemanha.

Os ideólogos alemães fizeram a cabeça da intelligentsia europeia, no século 19, mas não com a mesma facilidade encontrada na Rússia, campo virgem para todas as radicalizações filosóficas e políticas, desde Pedro, o Grande. Hegel, por exemplo, enfeitiçou tanto os russos que um de seus bardos transfigurou em versos a Ciência da Lógica. Falava alemão o conceito de niilismo usado por Friedrich Jacobi para caracterizar, negativamente, o idealismo transcendental dos herdeiros de Kant, no início do século 19.

O niilismo, grosso modo, existe desde a Antiguidade, desde Demóstenes e Empédocles, precursores do ceticismo epistemológico. Nada é absoluto, os valores morais não têm qualquer validade, a verdade é sempre subjetiva, e o progresso da sociedade só será possível após a destruição do que socialmente existe - eis, em resumo, o credo niilista. Com o acréscimo de que Deus não existe e nenhuma espiritualidade deve ser levada a sério, chegamos ao Zaratustra de Nietzsche, o mais reverenciado corifeu da doutrina.

Zaratustra "nasceu" em 1883 e o niilismo, oficialmente, está comemorando nesta primavera setentrional o seu sesquicentenário. A efeméride é russa. Pushkin e Griboyedov já haviam morrido quando, nas páginas do romance Pais e Filhos, de Ivan Turgenev, editado em 1862, surgiu a figura de Yevgeny Bazarov. Se Dimitri Pisarev foi o teórico do niilismo russo, conforme assegura Albert Camus em O Homem Revoltado, ninguém tira de Bazarov o título de demo padroeiro do movimento.

Doutor por vocação, niilista por avocação, Bazarov pertencia, como o próprio Turgenev, a uma coterie de jovens intelectuais idealistas em choque permanente com a autocracia de Nicolau I. Repudiava tudo e a tudo almejava destruir. Só no décimo capítulo ele pronuncia pela primeira vez a palavra mágica. Turgenev criou um monstro, precursor de Zaratustra e também de um vasto elenco de terroristas, um Frankenstein moral que o próprio romancista, na falta de melhor alternativa, puniu com um final de vida terrível. Nietzsche admirava o personagem, mas não se aventurou a cumprimentar o escritor num parque de Baden-Baden, oito anos antes de Zaratustra começar a falar. Apenas trocaram olhares, segundo Lou Andreas-Salomé.

Espremidos entre um estado reacionário e um campesinato miserável e analfabeto, Turgenev e sua turma - Herzen, Bakunin, Belinsky, Ogarev - formavam o que Dostoievski chamou de "o proletariado dos bacharéis". Sofreram a durindana czarista de várias formas. Muitos, entre os quais Turgenev, morreram no exílio. Hoje, fiéis à tradição, estariam em todas as passeatas contra Putin.

Em março de 1848, poucas semanas depois da queda de Luís Filipe I, Turgenev e Bakunin encontravam-se em Paris. Não viram a queda porque estavam em Bruxelas quando ela ocorreu. Na segunda parte da trilogia The Coast of Utopia, que Tom Stoppard escreveu sobre as quimeras e andanças daquela turma para o teatro, os dois cupinchas de Moscou e São Petersburgo cruzam com outro rebelde que também perdera a chegada da Segunda República por estar, justamente, em Bruxelas: Karl Marx, que lá fora rodar a primeira fornada do Manifesto Comunista.

Turgenev pega um exemplar do Manifesto e lê em voz alta a exortação de abertura. Marx lhe pergunta se a expressão "espectro do comunismo" soa mal aos seus ouvidos de escritor. "Não quero dar a impressão de que o comunismo morreu", revela seu temor. Antes que Turgenev possa dar sua opinião, o poeta Georg Herwegh, ativo participante da Revolução de 1848 na Alemanha, entra em cena e interrompe a conversa.

As vidas de Turgenev e Marx se tangenciaram um bocado. Ambos nasceram e morreram no mesmo ano (1818-1883), estudaram na Universidade de Berlim, foram influenciados pela dialética hegeliana, estavam em Bruxelas na segunda derrubada da monarquia na França, foram espionados pela polícia secreta, tiveram filho ilegítimo, moraram e morreram no exílio. De certo modo, o espectro do niilismo igualmente os uniu.

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