Unidos, mas desiguais

"A maioria dos homens não precisa enfrentar o fato de que, no momento certo, no lugar certo, eles são capazes de fazer qualquer coisa."

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2013 | 02h10

Esta é a epígrafe do livro de memórias de Samantha Geimer, The Girl: Emerging from the Shadow of Roman Polanski (A Menina: Saindo da Sombra de Roman Polanski). É uma citação de um diálogo entre o personagem de John Houston e o de Jack Nicholson no clássico Chinatown, de Roman Polanski. Polanski é também o protagonista, com a autora, de outro drama. Ele foi indiciado na Califórnia, em 1977, por drogar e estuprar a autora quando ela tinha 13 anos.

Hoje, Polanski tem 80 anos e continua celebrado como um grande artista. A senhora Geimer tem 50 anos, um marido, três filhos e decidiu tomar posse da parte que lhe cabe do latifúndio narrativo criado em torno daquela tarde. Mesmo depois da breve prisão do cineasta na Suíça, graças ao pedido de extradição feito pelos Estados Unidos, o nome Samantha Geimer continuou desconhecido. Mas ela e a família não tiveram a opção da vida no anonimato.

Geimer relembra o terror que sentiu "depois" e que preferia ser forçada a fazer sexo de novo a reviver tudo o que passou diante da polícia, do sistema penal e da mídia.

A menina cuja mãe a estimulava a posar como modelo foi apanhada de carro por Polanski para uma sessão de fotos para a revista Vogue, na casa de Jack Nicholson. Depois de encharcar a garota de champanhe e fazer fotos topless, Polanski telefonou para a mãe dela e retirou o último obstáculo prometendo que ia levar Samantha para casa. Partiu um comprimido de Quaalude em três pedaços e mostrou a ela numa tentativa de detectar sua experiência. Geimer sabia o que era, mas disse que não queria tomar. Ele insistiu. Ela obedeceu, tomou o Qaalude com champanhe, entrou na jacuzzi. Assustada com a situação, mentiu, dizendo que tinha asma e precisava ir para casa. Ele disse "não" e a empurrou para a cama, onde Samantha não tinha mais condições nem de dizer "sim". Ela se lembra que não queria ser tocada por um homem de meia idade, mas se conformou com o ato inevitável que incluiu penetração anal.

Para Geimer, em 1977, estupro era algo que acontecia a uma menina raptada por um estranho. "Não havia sedução ou gentileza, nem mesmo a coerção gentil, na minha definição," escreve.

Seu padrasto maconheiro e sua mãe deslumbrada chamaram a polícia porque as fotos mostradas pelo diretor, quando deixou sua filha em casa, eram de péssima qualidade? Ou por que a irmã da menina, ao ouvir a história avisou os pais alarmada? A reação da mãe foi chamar seu contador. O contador mandou chamar a polícia. E a bola de neve rolou montanha abaixo, aumentada pelo apetite insaciável de um juiz egomaníaco e da imprensa de celebridade.

Quantos homens brasileiros de classe média alta hoje, em torno de 50 anos, começaram sua vida sexual na área de serviço da casa de seus pais, com menores de idade? Ouvi histórias destas conquistas como bravata, durante minha adolescência. Naquele tempo, nem me passou pela cabeça que o sexo, apesar de consensual, era também um arranjo único de abuso de poder.

O que se aconteceu entre a garota de 13 anos e o artista atormentado que se atribuía direitos ainda comuns na sociedade brasileira não é simples. Pertence a uma era em que a sexualização de meninas era um aspecto triste da contracultura americana, tolerada sem a hipocrisia de hoje - em que é perseguida de maneira bombástica pela justiça, enquanto continua estimulada por corporações e pela mídia.

Samantha Geiner diz que sente empatia, não simpatia, pelo homem que mudou sua vida. Acha que ambos são vítimas de um mesmo sistema corrupto. Aceita o pedido de desculpas - sem admissão de culpa- que recebeu numa breve carta de Polanski.

Na carta, escrita depois que assistiu ao documentário Polanski: Wanted and Desired, de 2009, o diretor se diz "impressionado com a integridade" de Geimer. Se, ao menos, esta qualidade fosse importante para Polanski naquela tarde, há 36 anos.

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