Lucía Ferreira/Divulgação
Lucía Ferreira/Divulgação

Unidade latina por Adriana

Calcanhotto ganha tributo com artistas de países como Chile, Argentina, Uruguai e Venezuela

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

No formato, na atitude e no conteúdo, o álbum Não Moro Mais em Mim é algo inusitado. Com o subtítulo 10 Canciones (de Adriana Calcanhotto) Que Mis Hermanos Oyen, o disco reúne bandas contemporâneas da cena alternativa da Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela, Colômbia e Porto Rico e uma brasileira que vive em Londres - todos reinterpretando canções da compositora brasileira. Alguns deles saíram dos países de origem, absorvendo influências europeias e norte-americanas.

O disco não será colocado à venda: vai estar disponível para download grátis a partir desta semana no website www.naomoromais.com. Em formato físico, sai apenas em vinil, com 500 cópias, que serão distribuídas, também gratuitamente, em eventos do projeto Si No Puedo Bailar, no Es Mi Revolución, na Locomotiva Discos, em promoções no Twitter e no Facebook e via correio, mediante pagamento da postagem.

"O vinil é de graça mesmo, a pessoa só precisará demonstrar interesse "real" para tê-lo", diz Rodrigo Maceira, que produziu o disco, traduziu algumas letras, escolheu o elenco e, com o Si no Puedo Bailar, é responsável pela circulação no Brasil de artistas latino-americanos, como o uruguaio Franny Glass (ou Gonzalo Deniz), que se apresentou em 2010 no Sesc Pompeia, que está nesse disco e volta para o show de lançamento, ainda sem data e local definidos.

O que eles ganham com isso? "Muita coisa, mas não dinheiro. Amigos, movimento e realização", diz Maceira. "O projeto surgiu como mais um passo para a construção de uma rede entre novos artistas latino-americanos. Com ideias boas, acredito, poderemos levar adiante produções (shows, por exemplo) que ajudarão a equilibrar as contas. Hoje, o objetivo é mesmo realizar."

Filho de pai espanhol, amigo de vários artistas da atual cena latino-americana, fã de Adriana Calcanhotto, Maceira juntou as pontas com o aval da compositora e seu empresário Leonardo Netto. "Vejo alguns pontos em comum entre os dois lados: o jeito cult da Adriana, letras de um "romantismo inteligente", melancolia e, no geral, uma visão charmosa da cultura pop." Além da afinidade com a música de Adriana, esses artistas foram selecionados pelo bom material que produziram anteriormente.

"Vi um show da Adriana no Auditório Ibirapuera e saí de lá com a ideia do disco. Sou muito, muito fã e tinha a impressão de que as músicas dela agradariam aos artistas latino-americanos", diz o produtor. "Estava procurando um projeto bom, interessante, para dar o próximo passo com o Si No Puedo Bailar. Escrevi ao Leonardo e comentei sobre a possibilidade de fazer o disco. Logo em seguida, ele respondeu e disse que faria a ponte com a Adriana. Dias depois, veio um sim - e a gente agradeceu."

A autorização da compositora foi um grande estímulo, por isso Maceira diz que fez questão de corresponder à altura, não só na parte sonora, mas na embalagem. "Um projeto especial merecia um formato especial também." A opção pelo álbum de vinil com capa dupla criada por Gustavo Gialuca, "ajuda a deixar tudo muito mais bonito". "As pessoas veem o trabalho do Gus e ficam encantadas com a arte."

Adriana foi a autora escolhida para esse projeto porque "consegue ser pop e cult, consegue estar numa novela e colaborar com Domenico e Kassin (que tem trânsito notório entre independentes), consegue ser piegas e inteligente; falar de muita coisa, falando fácil", diz o produtor. "Adriana adiantou muito da música de agora, acho. Não exatamente como música, mas como projeto, como entendimento. Adriana abriu espaço para Tulipa, Cérebro Eletrônico, Lulina, Flávia Muniz e outros nomes que têm sido muito comentados recentemente."

Aproximação. Reunindo formações instrumentais, origens e estilos distintos, o álbum tem unidade, com um certo traço de melancolia em comum no formato folk com texturas eletrônicas. As canções, na maioria, soam diferentes das gravações originais. Algumas até melhores, caso de Cariocas, aqui interpretada pela dupla chilena Los Mil Jinetes.

Entre as faixas mais interessantes estão Cantata (Después de Estar con Vos), pelo argentino Cineplexx (Sebastián Litmanovich), Unos Versos, com o também argentino Coiffeur, Escuadras, com o uruguaio Franny Glass, e Segundos, com a colombiana radicada no Canadá Lido Pimienta. A banda colombiana Jóvenes y Sexys, que também foi trazida a São Paulo por Maceira, ficou com Mitad e Entre Ríos, com Vambora, esta mais próxima do original.

A brasileira Nina Miranda, que formou o Zeep com Chris Franck em Londres, abre o disco cantando Inverno em português. No lado B, meio em portunhol, a porto-riquenha Mima (Yarimir Caban) interpreta Mentiras, com acompanhamento de harpa. Sudoeste, com a dupla porto-riquenha Balún, que vive no Brooklyn, em Nova York, tem o diferencial do charango, mas o belo arranjo remete à melancolia etérea de Angelo Badalamenti, o autor das trilhas sonoras dos filmes de David Lynch.

Além do bom resultado em si, o outro mérito do disco é aproximar o Brasil da música contemporânea latino-americana, que se espalha por outros continentes, mas chega tão pouco por aqui.

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