Filipe Araujo/AE
Filipe Araujo/AE

Unidade em três

Com temas próprios e de outros autores, Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França lançam Metá Metá em aplicativo

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2011 | 00h00

Foi em 1954, em Fazendeiro do Ar. E veja quanto tempo faz que Carlos Drummond de Andrade, pleno de razão, esbravejou: "E como ficou chato ser moderno/ Agora serei eterno". Mais de cinco décadas depois, o recado ainda vale para o mercado musical, esgotado de lançar artistas embalados por modismos. De uns tempos para cá, em especial neste primeiro semestre, a produção brasileira independente vive uma efervescência criativa animadora. Neste grupo avesso a fórmulas pasteurizadas, sem emular ninguém, mas também sem ser pretensioso e arrogante, o trio formado por Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França acaba de lançar seu disco Metá Metá.

Como ainda não se chegou a um consenso sobre a melhor maneira de comercialização de música - em um cenário pós-gravadoras hegemônicas e manipuladoras -, tateando um incerto terreno, os três colocaram seu álbum na praça de graça para os ouvintes baixarem pelo aplicativo Bagagem. Ali, quem fizer o download poderá escutar as dez faixas do CD em formato MP3, conferir o encarte com ficha técnica e ver vídeos concebidos para cada uma das canções. Na escalação, o trabalho visual para os clipes coube a dez artistas plásticos. Com total liberdade, criaram na linguagem em que melhor se expressam. O tema, Oranian, por exemplo, ganhou bela animação sobre jornal, de Marcelo D"Salete.

"Uma das vantagens de lançar de graça na internet é você jogar lá o disco e, no dia do show, mais pessoas conhecerem as músicas", conta Dinucci.

Após o lançamento gratuito, o trio apresenta-se neste domingo, no Sesc Pinheiros, no projeto chamado Bagagem ao Vivo. A mesma noite contará com show do disco Simbiose, do Projeto Axial, além do coletivo Embolex.

O álbum, gravado em 2010, foi reflexo dos caminhos cruzados de Kiko, Juçara e Thiago. Os dois primeiros já tinham lançado em 2008 o bom disco Padê. Depois, na continuação do projeto, vieram shows para os quais ambos foram naturalmente convidando o saxofonista e compositor Thiago França. "O convite foi feito pelo fato de ele não ser apenas um instrumentista, mas também criador. Assim como já era com a Juçara, eu quero gente que está sempre criando ao meu lado. Quando também sou chamado para tocar com alguém, quero construir algo novo ali, naquele momento com quem me convidou", diz Dinucci.

O discurso vai além das palavras e pode ser percebido no próprio disco e na postura nos palcos, onde nenhum dos três faz questão de bancar o frontman. Nas redes sociais, após ouvintes terem contato com os trabalhos de Kiko e Juçara, chegaram a compará-los a Baden Powell e Clara Nunes. Há referências, mas vamos devagar com a louça. Não merecem ser rotulados e jogados na fogueira das comparações com monstros do passado.

"A gente faz parte de uma geração que cortou o cordão umbilical com os festivais. Nenhum de nós quer ser o Chico Buarque ou o Caetano Veloso. Eu não quero ser o Coltrane, saca? Não quero apenas emprestar meu instrumento para o convencional da partitura, quero fazer um papel diferente e enriquecer o arranjo", diz Thiago França.

Repertório e arranjos. Os três também têm, estreita e naturalmente, forte ligação com a musicalidade e a cultura vinda da matriz africana. Não são fortuitos o nome do CD e a estética explícita em Metá Metá.

"Escolhemos o repertório juntos. Optamos por gravar temas de artistas de que gostamos, sem deixar de registrar um trabalho autoral", diz Juçara Marçal.

Neste sentido, o disco é aberto com temas de Siba (Vale do Jucá), Lincoln Antonio (Umbigada), Jonathan Silva (Papel Sulfite) e Mauricio Pereira (Trovoa). E segue com as composições de Kiko, como Samuel (em parceria com Rodrigo Campos, que também toca cavaquinho) e Obatalá. O compositor também concebeu Vias de Fato (com Edu Batata) e Oranian, ambas feitas com o letrista Douglas Germano, com quem já havia lançado o excelente disco O Retrato do Artista Quando Pede, em 2009, no Duo Moviola. E ainda há espaço para as não menos dignas de nota Obá Iná, apenas de Germano, e Ora Ie Ie o, de domínio público.

Padê

De 2008, disco de Kiko Dinucci e Juçara Marçal já trazia forte influência do candomblé em composições como Padê, São Jorge e Atotô

O Retrato do Artista Quando Pede

No belo álbum de 2009, Kiko e Douglas Germano afiados em faixas como Deja Vu, A Loira do Banheiro e CIO

FAIXA A FAIXA

Vale do Jucá

Letra e melodia forte de Siba.

Umbigada

Com Thiago na flauta, composição de Lincoln Antonio.

Papel Sulfite

Belo tema de Jonathan Silva.

Trovoa

De Mauricio Pereira. Gravação mais bonita que a original.

Samuel

De Kiko e Rodrigo Campos. Um dos destaques do disco.

Vias de Fato

Samba precioso de Kiko com Douglas Germano e Edu Batata.

Oranian

De Kiko e Germano. Percussão de Samba Ossalê e bateria de Sergio Machado.

Obá Iná

De Germano. Perfume e quentura do candomblé.

Obatalá

A amálgama plena do trio.

Ora Ie Ie o

Suingada e pra frente.

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