Unicamp será invadida por haicais

De árvores bonsai a pequenos origamis, a cultura japonesa sempre conquistou inúmeros admiradores, ora pela riqueza de suas tradições, ora pela sua capacidade de miniaturização. Um exemplo é o haicai, espécie de poema com três versos que segue algumas regras específicas de métrica e composição. No Brasil, a técnica foi bastante difundida, a ponto de ser criado, há 13 anos, um encontro anual sobre o assunto. O 14º Encontro Brasileiro de Haicai será realizado neste fim de semana, no Espaço Cultural Casa do Lago, na Unicamp, em Campinas. Além de reunir grandes autoridades no assunto, que farão palestras no local, o evento terá atividades paralelas, como feira de livros, barracas de alimentos típicos, cerimônia do chá, shodô (caligrafia), sumiê (pintura), origami (técnica de dobrar papel) e kotô (instrumento japonês de cordas). Também será feita uma oficina de haicai ao ar livre, por meio do chamado Passeio Poético, além de um concurso O Grande Desafio, no qual os participantes devem compor um poema em apenas 20 minutos. A tarefa pode parecer fácil, mas quem entende da filosofia do haicai garante que não é tão simples assim. O pequeno poema deve ter três linhas e 17 sílabas, geralmente distribuídas na forma 5-7-5 (quantidade de sílabas por linha). Além disso, precisa conter uma palavra que corresponda, direta ou indiretamente, a uma das estações do ano. A linguagem deve ser concisa, fruto de intensa observação. Assim, o autor não deve permitir que seus sentimentos sejam expressos no texto, que deve apenas registrar o momento, tal qual uma fotografia. Coordenador acadêmico do encontro e professor do departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, Paulo Franchetti explica que o haicai é essencialmente objetivo. "Ele fixa o transitório, o fugaz. Tudo está em contínua mudança, e por isso a técnica tem de ser objetiva. Ela trata da exterioridade, tem um lado quase fotográfico de mostrar as sensações e o ambiente externo", informa.Imagens - Outro destaque do encontro será a 1ª Mostra Internacional Imagens do Haicai, que fará um panorama da veiculação da técnica em meios não tradicionais, como vídeo e internet. Serão apresentados trabalhos de várias partes do mundo, como França, Suíça, Estados Unidos e Brasil, entre vídeo-poemas, documentários e animações. A mostra também abrangerá um segmento digital, com exposição de sites que têm apresentações de haicai. Para o curador da mostra, Guto Carvalho, a internet precisa ser lembrada porque tem importância fundamental na divulgação da cultura japonesa e na integração de seus apreciadores.Carvalho destaca a dificuldade de passar o haicai da literatura para o vídeo: "Ocorre o que pode ser chamado de transposição intersemiótica, ou seja, é preciso adaptar a linguagem porque os meios são diferentes." Ele explica que isso pode ser feito de diferentes maneiras, como, por exemplo, apresentar a tela tripartida ou mostrar três momentos no vídeo. "Ele retrata a transitoriedade da natureza e, por isso, pode ser uma linguagem de diversas mídias. O importante é a atitude ?haicaística? do autor."Origem - A técnica surgiu no Japão por volta do século 16 e era composta por uma seqüência de poemas chamada haicai-renga. "Em sua forma original, o haicai era coletivo. Cada um fazia uma estrofe e elas eram lidas em seqüência. Aos poucos, as pessoas começaram a colecionar os haicai-rengas, mas guardavam apenas suas primeiras estrofes. Por isso o nome também foi abreviado", explica o professor Franchetti. O haicai retoma a filosofia espiritualista e o simbolismo taoísta dos místicos orientais. Surgiu da influência do budismo e busca uma forma de transcender a limitação da linguagem usual. A inspiração é a natureza e a integração de homem e ambiente. É por isso que a composição de um haicai é mais uma atividade de concentração e introspecção do que de inspiração. Um dos mais antigos e tradicionais poetas deste estilo é o monge zen Matsuo Basho, do século 17 ("Já é primavera/ Uma colina sem nome/ sob a névoa da manhã").Pouco depois que chegou ao Brasil, na primeira metade do século 20, a técnica gerou curiosidade e espalhou-se rapidamente no País. Ao contrário do imaginado, ela não chegou aqui por meio da imigração japonesa, mas ganhou espaço com a poesia de vanguarda, da qual o poeta Paulo Leminski foi um dos grandes expoentes. A popularização do haicai veio mesmo nos anos 80, com o cronista Millôr Fernandes, que adotou a técnica de forma satírica. "Virou febre. Todo mundo fazia um haicai", lembra Franchetti.Serviço: 14º Encontro Brasileiro de Haicai De 9 e 10 de novembro, das 9 às 19 horas (sábado) e das 9 horas às 16h30 (domingo), no Espaço Cultural Casa do Lago, na Unicamp. Cidade Universitária Zeferino Vaz, Barão Geraldo, Campinas. Entrada franca. Informações sobre o encontro: http://www.kakinet.com/encontro

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