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União do Oriente e Ocidente

Novos CDs de Harvey confirmam sua habilidade para equilibrar contrários

João Marcos Coelho, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2012 | 02h05

Duas obras do compositor inglês Jonathan Harvey, morto aos 73 anos no dia 4, lançadas em CDs em 2012, constituem um microcosmo perfeito para definir a sua música altamente expressiva e emocional, que, no entanto, jamais abre mão de injetar elevadas doses de inovação. Bird Concerto, em janeiro, e Wagner Dream, em outubro, constituem a porta de entrada ideal para uma música que brinca no limiar entre natureza e cultura, Ocidente e Oriente, e é atualíssima.

Bird Concerto with Piano Song, tributo de 2003 de Harvey a Olivier Messiaen, o mais apaixonado dos compositores pelo canto dos pássaros, só agora surge em primeira gravação mundial. Oferece uma síntese admirável de sua cartilha criativa: começa e termina com cantos originais pinçados entre 40 espécies de pássaros da Califórnia que dialogam com o piano e, em seguida, são eletronicamente manipulados em tempo real; e ainda incluem os instrumentos da London Sinfonietta, regidos por David Atherton.

É como se Messiaen, em vez de transcrever os cantos dos pássaros e transferi-los para instrumentos acústicos e trabalhar sobre eles como insumos melódico-harmônico-rítmicos, pilotasse refinados equipamentos de informática e eletrônica no Ircam de seu ex-aluno Pierre Boulez -, mas não deixasse de lado os instrumentos acústicos. Bird Concerto, que na gravação do selo NMC (disponível para download no site www.classicsonline.com por US$ 9,99) conta com o pianista Hideki Nagano, é uma das mais admiráveis obras de eletroacústica mista da primeira década do século 21. E agrada já na primeira audição. Da segunda em diante, torna-se memorável.

Como Harvey conseguiu este milagre? Seu itinerário tecido com contrastes conceituais violentos tornou-o um ser inventivamente inclusivo, desde as aulas com Milton "who-cares-if-you-listen" Babbitt até a estada em Paris, no Ircam e a paixão pelo espectralismo de Gérard Grisey.

Com uma pitada personalíssima: a devoção pela Índia e o budismo. Isso fez dele um Ravi Shankar em sentido contrário, alquimista misturando opostos, como corretamente aponta Paul Griffiths: "Grande equilibrista de contrários, promove encontros entre uma Europa fascinada pelas trevas, a melancolia e a loucura e uma Índia radiante, ingênua, nostálgica da presença divina e sua profundidade misteriosa e convidativa".

Griffiths intitula Harvey e a Deusa o capítulo dedicado ao compositor em seu livro Modern Music and After (Oxford, fevereiro/2011), acentuando a "estranha união" entre "trevas brilhantes, danças graves, de um mundo em que corpo e espírito, Oriente e Ocidente, são um só". Bela síntese.

Nada mais sintomático dessa atitude do que sua arrebatadora ópera Wagner Dream, com libreto de Jean-Claude Carrière, agora lançada em álbum duplo pelo selo Cypres (download na iTunes por US$ 18). Encomenda e coprodução múltiplas, da Ópera Holandesa, Grande Teatro de Luxemburgo, Festival Holandês e Ircam-Centro Pompidou, estreou em 2007 em Luxemburgo. Prevê seis atores, seis cantores solistas, pequeno grupo vocal, o Ictus Ensemble e manipulação eletrônica em tempo real pelo próprio Harvey, com regência de Martin Brabbins.

Harvey apaixonou-se pela tentativa de Richard Wagner, em 1856, de compor a ópera Die Sieger (Os Invencíveis), inspirada na lenda budista de Prakriti e Ananda. Prakriti é uma jovem de classe baixa, que tem um amor impossível por Ananda, um dos íntimos do Buda. Tão impossível quanto a saída: ela só poderá viver com o amado se entrar para uma ordem religiosa e fizer voto de castidade. Renúncia ao mundo como redenção, a história tem afinidades com o universo wagneriano.

O compositor fez um breve rascunho de libreto, acalentou o sonho até o fim da vida, em 1883, mas ficou nisso. Harvey, na mais ambiciosa e bem-sucedida tentativa para unir culturas tão diferentes, coloca em cena o compositor e Cosima no dia de sua morte, em Veneza, atormentado pela visão da lenda budista.

Convivem dois núcleos: os seis atores que personificam seus últimos momentos, e que jamais cantam; e os seis cantores que surgem como flashes em seu leito de morte. Só ele vê a trama budista.

A parte instrumental prevê 22 músicos: 9 cordas, 5 madeiras, 4 metais, 2 percussionistas, harpa e teclado eletrônico. A partitura prevê, por exemplo, quartos de tom e arcadas circulares e a espacialização é feita em oito canais. Uma sofisticada manipulação eletrônica inclui síntese granular, modulação em anel e filtragem múltipla.

Ao todo, são nove cenas, uma hora e meia de música de alta qualidade, que impacta tanto quanto, por exemplo, a maravilhosa Cassandre, de Jarrell, levada na Sala São Paulo este ano pelo Ensemble InterContemporain, do Ircam.

Escrita vocal sofisticada, com alusões a contornos melódicos e às harmonias wagnerianas, mas sem cair na clonagem jamais. A música é puro Harvey, corda bamba genial entre contrários. E as performances são extraordinárias. 2013 será o ano do bicentenário de nascimento de Wagner. Uma montagem de Wagner Dream, ou mesmo a encomenda de uma obra/ ópera baseada/ inspirada/ desafiada pelo universo wagneriano a um compositor brasileiro seriam sinais de que é possível também por aqui sair da mesmice e injetar inteligência nas efemérides.

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