Unha feita e arma na mão

Papo de Polícia mostra o dia a dia da única mulher na ocupação do Morro do Alemão

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h12

Flávia Louzada troca tiros com traficantes de drogas toda semana, mas não deixa de passar na manicure antes de adentrar becos de favelas cariocas. "Tenho cuidado para manter a unha curta para poder colocar a munição", disse ao Estado a policial militar, 32 anos, que terá sua vida mostrada na terceira temporada da série de sete episódios Papo de Polícia, que estreia amanhã, às 21h15, no Multishow.

Produzida pelo grupo AfroReggae, a atração conta como é o cotidiano da protagonista, que dá expediente no 22.º Batalhão da Polícia Militar, cujo muro é cercado pela favela da Maré, na zona norte do Rio, em que duas facções criminosas e uma milícia ocupam a comunidade, uma das próximas a receber uma unidade de polícia pacificadora. "Tivemos acesso a todos os setores que precisávamos gravar, eles não monitoraram nada", explica o produtor Rafael Ruas.

A equipe acompanhou Flávia em operações e esteve no meio do tiroteio com os policiais. "O Don (um dos diretores) caiu e continuou gravando. Alguns estavam com a camisa preta da produtora. Acharam que o Bope (Batalhão de Operações Especiais) estava lá", relembra Thiago Conceição, também diretor do programa ao lado de José Junior, coordenador do AfroReggae, que conversa com traficantes em uma das cenas.

Com fala mansa, Flávia garante não ficar nervosa nas incursões às favelas. "Na hora do tiro não paro para pensar se vou morrer. Vejo como se fosse um filme. Se pensar no medo, ele vai congelar a gente. E não é excesso de coragem, não dá tempo de pensar. Mas quando a munição acabou, pensei um pouco", revela a carioca, única mulher a participar da ocupação no complexo de favelas no Alemão, em 2010. Na ocasião, ela teria sido morta se o carro blindado da polícia demorasse mais para chegar. "Levei estilhaço de granada na perna antes de ir. Passei no hospital e fui. Não queria perder", conta ela, que precisou ficar duas noites no meio do mato com os colegas. "Fiquei dois dias sem tomar banho nem trocar a farda."

Cabo da PM, ela decidiu que entraria para a corporação aos 11 anos, quando sua mãe, professora da rede pública, foi baleada e morta por um ex-aluno com ligações com bandidos. Apesar ser uma exceção em um ambiente masculino, ela não tem regalias. "Ser mulher não pode ser algo que me faça atrasar nunca. Quando cheguei ao batalhão, não havia banheiro feminino."

O Papo de Polícia mostra também a vida de Flávia sem farda, como nos momentos em que vai a um centro de umbanda. "Eu recebo entidades", confidencia. Há ainda cenas curiosas, como o momento em que vai ao pagode com as amigas e deixa o revólver na cautela (chapelaria para armas) e também os dias em que trabalha como motorista de pet shop. "É a segunda profissão que paga as despesas da casa."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.