Ungaretti em São Paulo

Do Suplemento Literário[br][br]20.8.1966[br][br]O poeta, que morreu há 40 anos, foi professor da USP e reuniu em torno de si, mais do que alunos, um grupo de fiéis discípulos

Antonio Candido, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2010 | 00h00

Giuseppe Ungaretti regeu a cátedra de Língua e Literatura Italiana na Universidade de São Paulo de 1937 a 1942, mas a sua influência foi igualmente grande fora das aulas - nas conversas, nas reuniões, nas conferências. Quando partiu foi como se tivessem arrancado alguma coisa da cidade; alguma coisa que deixara um marco profundo embora quase silencioso.

Salvo um ou dois casos, os seus amigos, aqueles que mais sentiram a sua influência, não foram os seus alunos, no sentido escolar; mas todos foram seus discípulos, e todos são fidelíssimos à sua lembrança. Há mesmo uma espécie de maçonaria entre os que dele se aproximaram, feita de alusões, experiências comuns, evocação de fatos pitorescos e comoventes, cuja narração nos chega às vezes modificada pelo logo percurso que cumpriram; é como um ciclo de Ungaretti, na mitologia artística e intelectual da cidade. (...)

Quem não recorda a sua tristeza por deixar-nos sem ter podido ver as obras do Aleijadinho - êle que nos revelara a importancia e o significado do Barrôco literário, desde o papagaio verde-ouro do rei Dom Diniz, como constante portuguesa. As traduções de Mário de Andrade, que publicou na revista "L"Approdo" e leu em São Paulo por ocasião de uma breve visita, em 1954, revelam uma penetração, raramente alcançada, nos arcanos da nossa poesia. Em "Semantica" ("Un grido e paesaggi") serpenteia uma veia amazonica e, como diria Oswald de Andrade, tendencialmente antropófaga, que revela a mais compreensiva identificação. Somos todos gratos a Ungaretti por essa atenção seletiva e concentrada ao nosso País, que permite o diálogo sôbre os mares. (...)

Nas suas aulas, revelou o que significa o diálogo entre o pensamento e a sensibilidade do texto. Mostrou como, nas mãos do leitor capaz, surgem mundos ignorados, que parecem brotar materialmente das próprias linhas, dos espaços das letras, deslizar das maiusculas às minusculas, como se uma fermentação incessante e contida esperasse o eleito para florescer em beleza. Quantas vezes, em lições sucessivas, recomeçou a leitura de certo poema, corrigindo-se, superando a anterior, embora tivesse sido tão límpida e insuperável, com outra, nova, mais genuína e completa.

As suas aulas! Havia nelas uma fase tranquila de aproximação metódica; havia uma fase de arrebatamento, cuja inspiração o atraía para o quadro negro, giz em riste e as costas voltadas para os ouvintes, seguindo com sons guturais da voz o curso da inspiração.

LETRAS ITALIANAS "A Itália é minha pátria; o Brasil, a terra de minha experiência mais humana", dizia Giuseppe Ungaretti (1888-1970), que na realidade nascera em Alexandria, no Egito, e passara a juventude na França. Tradutor de Mallarmé, foi profundamente ligado à poesia de vanguarda do século 20. No projeto do SL, Antonio Candido incluiu a cobertura das letras italianas na parte fixa do caderno.

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