'Ungaretti em São Paulo': artigo publicado no 'suplemento Literário' de 20 de agosto de 1966

SÃO PAULO - Giuseppe Ungaretti regeu a cátedra de Língua e Literatura Italiana na Universidade de São Paulo de 1937 a 1942, mas a sua influência foi igualmente grande fora das aulas - nas conversas, nas reuniões, nas conferências. Quando partiu foi como se tivessem arrancado alguma coisa da cidade; alguma coisa que deixara um marco profundo embora quase silencioso.

Antonio Candido,

04 de junho de 2010 | 09h06

 

Salvo um ou dois casos, os seus amigos, aqueles que mais sentiram a sua influência, não foram os seus alunos, no sentido escolar; mas todos foram seus discípulos, e todos são fidelíssimos à sua lembrança. Há mesmo uma espécie de maçonaria entre os que dele se aproximaram, feita de alusões, experiências comuns, evocação de fatos pitorescos e comoventes, cuja narração nos chega às vezes modificada pelo logo percurso que cumpriram; é como um ciclo de Ungaretti, na mitologia artística e intelectual da cidade. É o caso do conselho drástico dado a um jovem pintor a quem sugeria maior experiência de vida antes de dar-se à arte, ou das exclamações sufocadas diante de um quadro de Picasso, em casa de Oswald de Andrade, ou do divertido "qui pro quo", sempre no mesmo lugar, a respeito de uma "gaffe" do anfitrião, ou ainda, de um juízo negativo sôbre um célebre escritor europeu que se encontrava então entre nós. E mais: as reflexões paradoxais a propósito de um famoso teólogo belga; a visão boccaccesca de um leprosário; as considerações sôbre os requisitos hormonais respectivos do escritor e do sociologo...

 

Tudo isso mantém uma presença afetuosa e viva, um culto familiar e reverente e indica a ação do grande poeta que nos ensinou tantas coisas: um dos poucos estrangeiros de alto nível, que tenha amado e sentido o Brasil em profundidade.

 

Quem não recorda a sua tristeza por deixar-nos sem ter podido ver as obras do Aleijadinho - êle que nos revelara a importancia e o significado do Barrôco literário, desde o papagaio verde-ouro do rei Dom Diniz, como constante portuguesa. As traduções de Mário de Andrade, que publicou na revista "L’Approdo" e leu em São Paulo por ocasião de uma breve visita, em 1951, revelam uma penetração, raramente alcançada, nos arcanos da nossa poesia. Em "Semantica" ("Un grido e paesaggi") serpenteia uma veia amazonica e, como diria Oswald de Andrade, tendencialmente antropófaga, que revela a mais compreensiva identificação. Somos todos gratos a Ungaretti por essa atenção seletiva e concentrada ao nosso País, que permite o diálogo sobre os mares. Por outro lado, os versos de "Dolore" mostram como êle se vinculou à nossa terra por uma agudíssima experiência vivida aqui.

 

De europeu trouxe-nos muito - na sua experiencia densa, na dramatica vibração com que êle cria e interpreta. Mais de um, entre nós, ao conhecê-lo transcreveu "L’allegria" e o "Sentimento del tempo", para sentir, naquela espécie de rito simpático, os pontos sutis de ossificação da sua poesia misteriosa e humana. E quando a máquina de escrever deixava no espaço branco os versos parsimoniosos, era como se o trabalho do nosso grande amigo se tornasse mais inteligível, com as palavras renascendo sob os dedos atentos, que na sua inexperiência procuravam explicá-las.

 

As suas aulas e as suas conversas serviram muitas vezes de guia a essa interrogação. Nelas sentíamos que o produto poético, depurado até tornar difícil o fôlego da compreensão, tinha por substrato uma erudição abundante, um atacar os problemas de todos os lados, uma dimensão vertical que sondava em profundidade. Sentíamos que o poema despojado tinha como base uma vitalidade mais forte e era realmente o aflorar mais puro da poesia, "pérola de espírito", como no verso de Alfred de Vigay.

 

Nas suas aulas, revelou o que significa o diálogo entre o pensamento e a sensibilidade do texto. Mostrou como, nas mãos do leitor capaz, surgem mundos ignorados, que parecem brotar materialmente das próprias linhas, dos espaços das letras, deslizar das maiusculas às minusculas, como se uma fermentação incessante e contida esperasse o eleito para florecer em beleza. Quantas vezes, em lições sucessivas, recomeçou a leitura de certo poema, corrigindo-se, superando a anterior, embora tivesse sido tão límpida e insuperável, com outra, nova, mais genuína e completa.

 

As suas aulas! Havia nelas uma fase tranquila de aproximação metódica; havia uma fase de arrebatamento, cuja inspiração o atraía para o quadro negro, giz em riste e as costas voltadas para os ouvintes, seguindo com sons guturais da voz o curso da inspiração; havia fases de retórno ao momento em que, a voz de nôvo calma, recolhia as conclusões emersas de tumulto e as ordenava com a mais nítida coerência; havia, ainda, momentos de luta contra a pasta de livros, de couro negro, com duas longas correias e uma curiosa vareta de metal que servia para prendê-las, a que o poeta revirava de todos os modos, reordenando sem cessar a pilha de livros para depois abandoná-la e voltar em nôvo extase à quixotesca contenda com o negrume impassível da lousa. Teria êle consciência de tôdas essas manobras, pensávamos, ou vagaria com a mente fora de tudo, de nós, da sala, da bôlsa, deslizando para o mundo da poesia através da inquieta espiral traçada no ar pelo giz? Leopardi e o sentido do pecado, a atuação do Cristianismo na literatura, a glória do Renascimento, o sonho austero e humano de Manzoni, cristalizavam-se naquelas sessões de invocação crítica, mostrando, mais de uma vez, as sólidas bases de um mundo de emoções e de idéias. E do professor, do poeta, do amigo, compunha-se a cada instante o quadro completo e perfeito do homem exemplar.

 

Quando trovo

in questo mio silenzio

una perola

scavata è nella mia vita

come un abisso.

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