'Uneven', ode aos contrastes e às assimetrias

Peça ata laços com a história do Balé da Cidade

HELENA KATZ, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h13

O início de Iracity Cardoso na direção do Balé da Cidade de São Paulo aconteceu com um programa que se anuncia como um marco simbólico. Composto por uma estreia (que aponta para o presente) e por uma remontagem (que indica que o passado também faz parte do presente), reúne ambas como quem sussurra que a tarefa que se impõe é a de fazer tudo renascer.

A nova peça, Uneven, ata laços com a história do Balé da Cidade. Cayetano Soto, seu autor, assinou Canela Fina, em 2008, para a companhia. Em Uneven, a peleja com as linhas e os ataques que caracteriza Cayetano se intensifica, esbanjando a sua habilidade com os duetos. Material bom não falta, mas o conjunto de propostas não ancora uma dramaturgia à sua altura. Sobra vocabulário na sua sintaxe.

O fato de a outra obra ser A Sagração da Primavera irradia, como uma medida sem régua, que é necessário descobrir o que se deve sacrificar para, então, poder sagrar. No caso, a tarefa talvez seja a de agora transformar os muitos ontens em canais de irrigação para um florescimento constante.

A Sagração da Primavera que a companhia dança é a que Luiz Arrieta coreografou em 1985 e remontou em 1993. Para chegar à de 2013, vale lembrar que a reencenação de uma dança já acontecida não a liga em arco com a que a antecedeu. Elas escapam ao calendário. Como se trata de uma arte do tempo e do espaço, em dança não há refazimento, apenas fazimento, porque, cada vez, ela acontece em um momento específico. Quando os corpos são outros, então, não há coincidências nem desvios, pois se trata de uma nova primeira vez.

O controle dos passos não é a chave dessa situação. Sua Sagração é urbana e agora conta com um elenco que não viveu a circunstância do outro, da primeira montagem. Compartilhando um mesmo percurso artístico atado ao Balé da Cidade, estavam todos, inclusive o coreógrafo, bem próximos da linguagem daquela dança, que lhes vestia sem desajuste. Hoje, os bailarinos vão precisar de mais tempo para conseguir fazer pulsar, na dose certa, a inspiradora combinação entre a 'sagração' de cada um e a da força que vem de todos juntos de que nos fala Arrieta nessa criação.

A produção de 2013 aproxima-se mais da de 1985 do que da versão de 1993. Dela retoma os figurinos de Rosa Magalhães, mas o mais significativo é a sua pertinência, nesse momento em que está sendo reposta no cotidiano do Balé da Cidade. Arrieta antecipa o tema da relação do sujeito com o grupo, que ganharia relevância na década seguinte e explodiria nos dias de agora, para dentro e para fora da dança, escorrendo para toda a sociedade.

É da consciência do papel de cada bailarino no reconstruir da sua companhia que tudo depende, agora mais do que nunca. Com esse programa-marco, algo já se iniciou: o Balé da Cidade de São Paulo demonstra saber como embrulhar o passado para presente.

CRÍTICA

JJJJ ÓTIMO

JJJJJ

ÓTIMO

OBRA

COMPROVA A HABILIDADE DO CRIADOR

CATALÃO

CAYETANO SOTO

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