Unesco lança relatório sobre cultural global

Identidade cultural e expressões nacionais são desafiados diariamente pelo processo de globalização, das mais variadas formas. A partir dessa premissa, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Cultura, Ciência e Educação) preparou um relatório sobre diversidade cultural, conflito e pluralismo nos dias de hoje. O World Culture Report - 2000 (não há versão em português do relatório) combina uma série de dados em busca de um entendimento da situação atual.Eles vão desde o número de línguas vivas existentes no planeta, ainda que faladas por um número reduzido de habitantes, até a ocupação do mercado cinematográfico por obras nacionais e estrangeiras, passando pela presença de imigrantes e pela passagem de turistas pelos diferentes países, dos gastos por habitantes com produtos da indústria fonográfica e dos países que têm escritores premiados com o Nobel, entre muitos outros. Ao todo, são 30 tabelas. A Unesco considera, portanto, a cultura num sentido lato. O número de imigrantes significa um potencial de troca cultural, assim como o de turistas. Mas também pode indicar um potencial de conflito, se essas trocas não encontrarem caminhos de consenso. Isso não permite, no entanto, ignorar o peso do mercado cultural, especialmente o do audiovisual. Nele, predomina o poder do cinema de Hollywood, que domina 85% do mercado mundial, segundo um dos dados do relatório.Não é à toa, portanto, que um filme como Independence Day só pôde ser feito nos Estados Unidos: um presidente norte-americano comandando toda o humanidade, na luta contra extraterrestres. Mas é esse o verdadeiro quadro da cultura globalizada?Na introdução do volume, de 414 páginas, constata-se que a maioria dos conflitos que têm surgido dentro dos Estados nacionais envolvem questões culturais: a guerra étnica no Kosovo a resistência dos cristãos em Kaduna, na Nigéria, à adoção de uma legislação islâmica, o levante de chineses na Indonésia como resultado da crise econômica e a mobilização de 3 milhões de indígenas no Equador.Medo do processo - "Todos esses conflitos surgiram no curto espaço de tempo iniciado após a publicação do primeiro World Culture Report, dois anos atrás." Apesar disso, para a Unesco, "os medos de uma uniformização cultural não tem sustentação". Mas é preciso reconhecer que o processo de globalização cria novos desafios e novos problemas."Ao mesmo tempo em que a globalização cria novas oportunidades para trocas culturais, novas formas de intolerância e agressão estão surgindo", afirma. "Xenofobia e racismo, guerras étnicas, preconceito, estigmas, segregação e discriminação, baseados principalmente em etnicidade e gênero, estão gerando violência e sofrimento em quase todos os lugares."No texto Globalização e Diversidade Cultural, Elie Cohen, diretor do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) francês, começa com a citação de um estudo publicado nos EUA, intitulado: A Globalização já foi longe demais?.Para Cohen, a globalização é normalmente apresentada como um fato consolidado, um constrangimento ao qual temos de nos adaptar. A única coisa capaz de resistir à globalização, para ele, é a definição de uma identidade - "em outras palavras da diferença". "A identidade cultural, que é apenas uma forma de expressar uma inevitável especificidade de estilos de vida, modos de trabalho e consumo, bem como instituições políticas e administrativas, é freqüentemente usada como um obstáculo à globalização."Cohen segue discutindo o papel da cultura em diferentes acordos comerciais desde os anos 60, narrando as dificuldades e os problemas encontrados nas negociações desses acordos quando entrava em questão o problema da cultura.O relatório inclui ainda uma série de discussões sobre a relação entre cultura e pobreza, iniciativas locais de preservação cultural e casos específicos de países que são culturalmente diversos, como a Índia, ajudam a compor um painel sobre a cultura mundial descrita e debatida nessa segunda parte do relatório da Unesco.Patrimônios - Uma terceira parte do World Culture Report busca apresentar políticas culturais. Nessa parte, ganha destaque a questão dos patrimônios culturais e naturais da humanidade. Segundo Laurent Lévi-Strauss, diretor de patrimônios culturais da Unesco, os períodos que vai de 1950 a 1970 viu a adoção pela comunidade internacional de uma série de convenções e recomendações em torno de questões relacionadas à preservação de heranças culturais.Um dos problemas apontados por ele é o de escolher o que preservar em países subdesenvolvidos, que não produziram obras de caráter monumental. Outra questão que o preocupa é a ocorrência de uma espécie de "febre de inscrições" de países em busca de reconhecimento de obras como patrimônio da humanidade. "Estamos assistindo a um ´efeito de bola-de-neve´ na questão do número de inscritos, encorajados pelo considerável número de novos sítios culturais registrados a cada ano: nos últimos seis ou sete anos, 85% a 90% das propostas submetidas receberam pareceres favoráveis."Há poucas versões do relatório no Brasil. Informações sobre como encomendar uma cópia, a partir da França, podem ser obtidas na sede da organização no País (tel. 61 321-3525, ramais 248 e 286).

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