Umberto Eco enfoca o terrorismo em artigo

Está claro que "sob o céu há uma grandeconfusão", mas é justamente diante de uma crise como a atual que "é preciso saber usar as armas da análise e da crítica". Esta é a proposta que se depreende de uma longa análise publicada hoje no jornal italiano La Repubblica por Umberto Eco, um dos grandes semiólogos do mundo e entre os maiores pensadores italianos, que, até agora, havia feito poucas declarações sobre os atentados contra os Estados Unidos em 11 desetembro.O ponto de partida do extenso artigo de Eco são as controversas declarações formuladas dias atrás pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, sobre ´a superioridade do Ocidente frente ao Islã. "Todas as guerras religiosas que, ao longo dos séculos, ensangüentaram o mundo nasceram de adeses passionais a contraposições simplistas, como ´nós e os outros´, ´bons e maus´, ´brancos e negros´... Se a ocidental demonstrou ser uma cultura fecunda, é exatamente porque se esfor?ou em esclarecer as simplificações daninhas, à luz da pesquisa e do espírito crítico", explica Eco em um dos primeiros parágrafos de sua análise.O autor do famoso romance O Nome da Rosa, entre outros, adverte que ´se se quer recorrer à História, é preciso ter cuidado, porque ela representa uma arma de dupla face´. Ao assinalar alguns dos suplícios dos últimos séculos, Eco lembra que "os turcos empalavam, mas os bizantinos ortodoxos arrancavam os olhos e os católicos queimaram Giordano Bruno... Ospiratas de sua majestade britânica incendiavam as colônias espanholas no Caribe", sem esquecer, afirma Eco, que "na cultura ocidental tivemos os senhores que se chamaram Hitler e Stalin". Em outro trecho de sua análise, Eco pergunta-se sobre o que quer dizer na realidade "estar na vanguarda de uma cultura", por exemplo, no campo da ciência e da tecnologia. "Quanto é absoluto o parâmetro do desenvolvimento tecnológico?": O Paquistão tem a bomba atômica e a Itália não, eisto quer dizer que nossa civilização é inferior? Viver em Islamabad é talvez melhor que viver em Arcore (o lugarejo perto de Milo onde Berlusconi tem uma de suas mansões)?", Questiona Eco de maneira muito provocativa.Eco destaca ainda a importância do ensino da "aceitação das diferen?as". O autor de Baudolino enfatiza que "para poderdizer que uma cultura é melhor que outra, não é suficiente descrevê-la (como fazem os antropólogos), e sim ter bem presente o sistema de valores ao qual consideramos que no podemosrenunciar: apenas ento podemos afirmar que, para nós, nossa cultura é melhor".

Agencia Estado,

05 de outubro de 2001 | 21h42

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