Umberto Eco discute idéia do belo em dois livros

Aos que imaginavam ter entendido O Nome da Rosa, Umberto Eco traz dois recados em forma de livros: História da Beleza (440 págs., R$ 150), que a Record coloca a partir de hoje nas livrarias, e La Misteriosa Fiamma della Regina Loana (Bompiani, 458 págs, 19 euros), cuja tradução para o português a mesma editora promete lançar em abril. O primeiro não é obra exclusiva de Eco. Deriva, com acréscimos e adaptações, de um CD-ROM lançado há dois anos na Itália, com textos do autor e de Girolamo de Michele. O segundo livro é, sim, um romance ilustrado de autoria exclusiva de Eco, que revisita o próprio passado por meio de um personagem que perde a memória - a biográfica, não a semântica. Os dois livros, de alguma forma, explicam o "recado" de O Nome da Rosa, que já vendeu 20 milhões de exemplares no mundo e, provavelmente, não foi entendido nem pela décima parte desse universo, a considerar que todos esses leitores teriam de ser eruditos para entender a mensagem sobre a segunda parte perdida da Poética de Aristóteles - verdadeiro tema do gótico sobre heresias, códigos secretos, misteriosos manuscritos e crimes numa abadia do século 14. Esperto para saber que erudição vende, Eco emprestou seu nome ao luxuoso História da Beleza, no qual assina 9 dos 17 ensaios nele contidos - e ainda assim, textos antigos, cuja republicação autorizou. Isso não diminui sua importância nem sua beleza. Justificando o título, o luxuoso volume é um "coffee table" natalino concebido para impressionar. É fácil distinguir os textos de Eco, até mesmo porque eles conservam aquele tom escolástico corrompido pelo suspense vulgar, que fez de O Nome da Rosa um precursor de best-sellers como O Código Da Vinci. Eco nunca foi um historiador de arte como Argan. É um semiólogo. Seu conceito de beleza e o conhecimento na área desautorizam comparações nesse sentido. De qualquer modo, capítulos como o dedicado à investigação sobre o papel da luz e da cor na Idade Média justificam o dinheiro aplicado no livro. É um prodígio de síntese, capaz de levar ao leigo informações fundamentais sobre a hostilidade medieval à esfumatura, truque maior do barrocos príncipes das trevas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.