Uma voz que vira arte ao ar livre

Sai lista oficial dos artistas da 29.ª Bienal de São Paulo, que começa em setembro, e um dos nomes mais fortes da arte conceitual, a escocesa Susan Phillipsz, fala ao Estado

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2010 | 00h00

Lowlands(2010). Nesta ponte da ferrovia de Glasgow, Susan Phillipsz criou uma intervenção sonora, exatamente como pretende fazer no Parque do Ibirapuera    

 

Em março, a artista escocesa Susan Phillipsz esteve em São Paulo e se encantou, no Parque do Ibirapuera, com o amplo espaço da marquise, em que convivem e, de certa forma, se libertam tranquilamente de qualquer convenção skatistas, músicos espontâneos, crianças, adolescentes. "Aquele é um lugar incrível, com uma ótima acústica. É um espaço verdadeiramente público", diz Susan. Sua visita ao Brasil fazia parte de suas pesquisas para a 29.ª Bienal de São Paulo, que ocorrerá entre setembro e dezembro e da qual ela é uma das artistas convidadas. Susan está na lista oficial de nomes participantes, nacionais e estrangeiros, selecionados pela curadoria do evento e anunciados em encontro ontem pela manhã.

 

Veja também:

linkConfira a lista de artistas participantes da 29ª Bienal

Susan Phillipsz se dedica a criar site specifics (arte criada especificamente para um espaço) e instalações sonoras em que usa a própria voz. Indicada para o prêmio Turner de arte contemporânea, ela concedeu ao Estado uma entrevista por e-mail.

O que está planejando apresentar na 29ª Bienal de São Paulo?

Estou trabalhando um novo projeto para a marquise, situado do lado exterior do Pavilhão da Bienal. Vou trabalhar com minha própria voz, mas ainda é cedo para especificar a obra.

O que a impulsionou a considerar o som como matéria de suas criações?

O impulso inicial foi para mim a escultura. Comecei a pensar sobre a "fisicalidade" e os aspectos esculturais da produção do som. Tomei consciência do espaço interior do corpo e do que acontece quando você projeta sons em um local quando canta. Projetar a voz desencarnada em um espaço pode conferir àquele lugar uma presença misteriosa, etérea. Essas considerações me permitiram desenvolver as obras que crio atualmente. Estou interessada na relação entre som e arquitetura e nos efeitos psicológicos do som, em como a música pode agir como gatilho para a memória.

 

Em suas obras, você pode criar tanto versões de músicas populares quanto canções políticas. O que pensa do tema desta Bienal de São Paulo, a relação entre política e arte ou "política da arte"?

 

Acredito que seja um tema muito interessante e pelo qual me identifico. Há muitos aspectos políticos na prática da arte e acho que é muito relevante. E não é sempre tão óbvio assim. Por exemplo, instalar minha obra na marquise pode ser considerado um ato político, porque intervem em um espaço público e pede para ser considerado ao longo dos eventos dos dias. Penso em escolher com cuidado o local exato para que o trabalho possa convocar uma resposta coletiva e para que cada um possa tirar algo dele. Como artista, acredito que é melhor ser mais ambígua e menos didática a respeito da política.

 

Você tem alguma relação com o Brasil ou com a cultura brasileira?

 

Acho o Brasil um lugar fascinante do que sei do país. O Brasil tem uma história inacreditável e é muito multicultural, comparado a Berlim, onde vivo. Quando visitei São Paulo, fiquei tomada pela incrível energia que há naquela marquise, no Ibirapuera. A cidade parece tão viva, apesar da selvageria da modernidade estar tão presente nela. Há uma dicotomia estranha que me agrada.

 

Em quais projetos, além da Bienal de São Paulo, você está trabalhando atualmente?

 

Estou desenvolvendo uma obra comissionada pelo Artangel (programa inglês) para um espaço público em Londres, que vai coincidir com a exposição dos finalistas do prêmio Turner na Tate (em dezembro). Vou inaugurar, ainda, em agosto, uma obra permanente com o Museu de Arte Moderna de Varsóvia para o Parque de Escultura Brodo.

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