Uma voz que sai do nada

Em 2012 saiu no Brasil a elogiada tradução de Ulysses, de James Joyce, assinada por Caetano W. Galindo, que verteu agora todos os poemas de Paul Auster. O sóbrio prefácio do tradutor ao volume Todos os Poemas me surpreendeu, pois senti, ao lê-lo, a presença de um Galindo contido ou apolíneo que eu desconhecia e que me pareceu muito diferente do Galindo dionisíaco que traduziu Joyce com verve e destemor. Nenhum traço ali das divertidas e irreverentes declarações que ele escreveu ou deu à imprensa durante o lançamento de Ulysses. Então me dei conta de que a poesia de Auster não tem humor nem jogos de linguagem joycianos, e o nosso tradutor, para ser fiel à dicção do poeta norte-americano, teve de ser seco e simples desde o prefácio que escreveu para apresentar a faceta literária menos conhecida desse famoso ficcionista. O resultado da parceria Auster-Galindo, em termos de qualidade poética, é visível logo no início do livro, na leitura de um grande poema sem título que, ao falar de uma pedreira, conclui: "E as pedras, cingidas de abuso,/ Memorizaram a derrota".

Sérgio Medeiros,

01 de março de 2013 | 22h00

A melhor parte da poesia de Auster claramente se propõe "a recitar o massacre das pedras", conforme lemos em outros poemas do livro. As pedras se partem, mas o céu também se cinde e os astros (que, afinal, são pedras) caem e rastejam. Pode-se afirmar que no "paraíso" de pedra de Auster há um movimento contínuo, uma atividade incessante, que é também um desgaste eterno. As palavras de pedra não param de se mexer "na boca da terra cindida". Nasce daí o fascínio dessa poesia cosmogônica (a figura do "ovo" é recorrente nela), que em traços rápidos e eficazes aproxima e embaralha o céu e o inferno: o céu flagela as letras, a voz, que são pedras enviadas do inferno.

Dessa poesia objetiva, imagista, destacarei não o papel do olhar, mas o da voz que sai do deserto ou de lábios que queimam. Essa voz é de ninguém, como na prosa de ficção de Samuel Beckett. Uma voz nômade, "até lugar-nenhum". Essa voz brota de uma boca que é uma prisão de onde não se escapa - fala-se sem fim. As pedras rolam, as palavras não cessam. Por isso mesmo, o "nômade" ouve este conselho, que talvez venha dele mesmo: "Como se, onde quer que te movas, seja novo o deserto, e se mova contigo". A vida parece resumir-se ao ato de sumir no deserto, que é começo e fim. Diz o poeta em um dos seus momentos culminantes: "E a vida que é esta força em mim de sumir".

Citei uma passagem antológica, mas há outras no livro que não são nada memoráveis, porque os versos de repente perdem a dureza e a secura, vale dizer, deixam de ser pedras de um deserto. Isso acontece quando os poemas se alongam e se soltam na página. A certa altura a poesia de Auster abandona o ovo cosmológico e se torna, não a potente voz nômade, mas o "órfão maltrapilho" (expressão dele) que, para mim, é muito incômodo e decepcionante. No meio do livro, deparei-me com versos que são indignos de Auster (citarei a tradução de Galindo, que procura ser, acredito, a melhor possível): "Lentamente,/ mergulhas o dedo na chaga/ de onde escapa/ minha voz".

Mas isso não é tudo. Também encontrei "insondado pranto" e outras locuções não menos constrangedoras que jamais imaginei ler em autor tão refinado. É óbvio que o ar de Todos os Poemas se torna irrespirável quando o seu autor abandona o deserto puro e simples.

SÉRGIO MEDEIROS É TRADUTOR E POETA, AUTOR DE TOTENS (ILUMINURAS), ENTRE OUTRAS OBRAS

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