Dario Zalis/Divulgação
Dario Zalis/Divulgação

Uma voz curtida sobre o palco

'Finalmente um cantor que canta', celebrou o crítico Sérgio Cabral ao ouvir nos anos 70 Emílio Santiago, membro de uma geração que aprendeu a cantar na noite

Lauro Lisboa Garcia, Especial para o Estado com colaboração de Clarissa Thomé,

21 de março de 2013 | 02h10

O cantor Emílio Santiago, de 66 anos, morreu às 6h30 de ontem, em decorrência de complicações de um acidente vascular cerebral isquêmico, em que não há hemorragia. Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Samaritano desde o dia 7 de março, quando se sentiu mal e foi encontrado na sua cobertura, no Flamengo, zona sul.

Santiago chegou ao hospital ainda falando e com dificuldade para movimentar o lado direito do corpo. Naquela noite, ele foi sedado e as visitas foram proibidas. Na segunda, os médicos começaram a retirar lentamente a sedação - a previsão era de que ele estaria sem medicação até o fim da semana. Durante a madrugada, ele sofreu a piora.

A cantora Alcione, grande amiga do cantor, foi uma das primeiras a chegar ao hospital, pela manhã. O corpo de Emílio Santiago foi velado na Câmara de Vereadores do Rio. O cantor será enterrado ao lado do túmulo da mãe, Ercília, que morreu em 2006, no Memorial do Carmo, na zona portuária, às 11 h de hoje.

Emílio Santiago (1946-2013) foi uma das vozes masculinas mais marcantes de sua geração, comparado internacionalmente a grandes nomes da canção americana, como Nat King Cole (1919-1965), Johnny Mathis e Lou Rawls (1933-2006). A morte do cantor repercutiu logo cedo nas redes sociais e amigos como Roberto Menescal, Luiza Possi, Ed Motta e Alcione, com quem ele dividiu o microfone diversas vezes, lamentaram profundamente a perda do "maior cantor do Brasil" (Motta) e da "grande pessoa" (Paula Lavigne). "Como é que o Brasil vai viver sem essa voz e como é que eu vou poder viver sem o meu amigo?", lamentou Alcione.

Os dois vêm de uma linhagem de canto curtida no palco, na noite, de voz bem projetada, "pra fora", potente e afinada. E no país dominado pelas cantoras a partir da década de 1970, Emílio se impôs como o "Nat King Cole brasileiro" cantando de tudo.

Não foi à toa que o escritor Sérgio Cabral, especialista em música popular brasileira, autor de biografias de Elizeth Cardoso (1920-1990), Tom Jobim (1927-1994), e Nara Leão (1942-1989), saudou sua estreia nos anos 1970 com essa frase: "Finalmente um cantor que canta".

Parece óbvio

Porém, não. Emílio foi influenciado por algumas das grandes vozes masculinas da era pré-bossa nova, como Nelson Gonçalves (1919-1998) e Cauby Peixoto. A era dos cantores vindos do rádio, terminou com o advento da bossa nova e, sob influência da "voz pequena" de João Gilberto, o panorama mudou.

Com o fim do movimento e o golpe militar no Brasil, havia uma demanda de público para outras questões. Lennie Dale (1934-1994) trouxe know-how americano da Broadway que influenciou Elis Regina (1945-1982) e Wilson Simonal (1938-2000), herdeiros jazzísticos da bossa nova, como Leny Andrade, outra cantora que afina com o estilo de Emílio, e também começou a crescer nessa época, por volta de 1965.

Com a proliferação das cantoras a partir desse período em que também foram reveladas Maria Bethânia, Gal Costa, os grandes intérpretes masculinos contava-se nos dedos, com destaque para Simonal e Roberto Carlos. Quando Emílio surgiu, fazendo sucesso exclusivamente como cantor havia apenas Ney Matogrosso. Tim Maia (1942-1998) e Milton Nascimento também compunham. Daí a saudação entusiasmada por seu surgimento, esbanjando técnica, potência e suingue.

Emílio, que também era admirador de João Gilberto, estudou advocacia num tempo em que os pais escolhiam a profissão dos filhos, e nem pensava em ser cantor profissional. Até que, com um pequeno empurrão dos amigos, começou a participar de festivais e chegou às finais de um concurso no programa de tevê A Grande Chance, do rígido Flávio Cavalcanti (1923-1986). Foi crooner da orquestra de Ed Lincoln (1932-2012) na TV Tupi, terreno propício, como as apresentações em boates, para desenvolver a versatilidade do canto.

A estreia de Emílio em discos foi o compacto com Transas de Amor e Saravá, Nega, pela Polydor, em 1972. O primeiro LP, lançado pela gravadora CID só veio três anos depois, levava apenas seu nome e foi produzido por Durval Ferreira. Com músicas de João Donato e Gilberto Gil (Bananeira), Jorge Ben (Brother), João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro (Batendo a Porta), Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito (Quero Alegria), entre outros, o disco é considerado um dos seus melhores e virou cult, anos depois, com grande execução em bailes black.

Contratado pela Philips no ano seguinte, produziu uma sequência de outros bons LPs na linha do primeiro, como Brasileiríssimas (1976), Comigo É Assim (1977), Feito para Ouvir (1978) e Emílio (1978).

Com uma carreira regular de discos e shows, na década de 1980, ele ficou marcado como cantor romântico, venceu o festival MPB Shell, da Rede Globo de Televisão, cantando Pelo Amor de Deus (Paulo Debétio/Paulinho Resende), em 1982, e Elis, Elis (Estavan Natolo Jr./Marcelo Simões) em 1985.

Entre 1988 e 1995, a convite de Roberto Menescal e Heleno Oliveira, lançou uma série de sete álbuns intitulados Aquarela Brasileira, reinterpretando clássicos do cancioneiro brasileiro. Obteve com isso grande êxito popular, mas ao mesmo tempo ficou estigmatizado como cantor de covers.

Essa impressão, porém foi sendo desfeita aos poucos, primeiro como o sucesso de Verdade Chinesa (Gilson/Carlos Colla) e Saigon (Cláudio Cartier, Paulo César Feital e Carlão), na década de 1990, e com o belo álbum Emílio Santiago Interpreta João Donato, em que ele reencontrou o amigo e pianista, autor que tinha gravado no início da carreira.

Outro marco mais recente de sua carreira foi o álbum De Um Jeito Diferente (2007), dedicado a Durval Ferreira, em que deixou claro já a partir do título que não era apenas o cantor das aquarelas, com participações de Donato, Marcos Valle e Nana Caymmi. "Não tenho mais que provar a ninguém que tenho voz. Sempre quis falar cantando e cantar falando. O mais importante é a entrega", disse Emílio ao Estado na ocasião. Seu último trabalho foi Só Danço Samba, de 2010, primeiro disco de seu selo, Santiago Music.

Ontem, em depoimento que repercutiu nas redes sociais, Menescal confirmou: "É a voz do Brasil. Nos bastidores, no estúdio é que você sabe quem é cantor e quem não é", disse. "Era o único cantor que cantava em qualquer tom... Tinha o timbre, mas também o suingue. Tinha um estilo próprio, não é algo que possa imitar. Foi uma referência para outras gerações".

Hoje, em que a questão do "quem sabe cantar" esteja novamente em pauta, com tanta gente fazendo música só porque quer, não porque sabe, eis um exemplo a se levar em consideração.

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