Uma voz chamada Dandara

A intérprete da música vencedora da última edição do Musique entra na pista para a decolagem

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

A casa, foi tudo culpa da casa. O avô ligava o rádio para ouvir Francisco Alves, o irmão queria saber de Mamonas Assassinas e os pais não abriam mão de Chico Buarque, João Bosco, Elomar e Xangai. Xuxa bem que tentava dar as caras na TV, mas o vinil de Elis Regina não dava chance. E por entre as vozes desse povo todo corria uma menina com um nome daqueles que já vem em forma de música, Dandara. Além de ouvir todo tipo de canção, o dia todo, Dandara via o pai cantar e tocar violão nas festinhas da família. Não deu outra. Aos dez anos, a garota fazia seu primeiro show "adulto" para 800 pessoas cantando Xangai e Vicente Barreto. Aos 20, interpretava Pavana Para uma Terra Viva, canção que o amigo André Lima fez para a letra inédita de Tom Zé, com a qual venceria a segunda edição do Prêmio Musique do Estadão.      

 

Veja. videoO vídeo de Dandara cantando Pavana  

E foi assim, entre quase 300 inscritos, que Dandara apareceu meio que por tabela, flagrada em um instante curioso. Sua carreira até então só taxiava, sem pressa para a decolagem. "Não tenho CD ainda, e não tenho pressa de fazê-lo. Depois que gravamos, não conseguimos mais apagar." Até que algo fugiu ao controle. Pavana entrou na programação da Rádio Eldorado FM (92,9) e um vídeo de Dandara e André gravando a música em estúdio correu pelo YouTube. No primeiro show que fez depois do prêmio, em uma casa de Moema, as pessoas cantavam juntas a letra de Pavana como se ela fosse um hit. Quando acabou, a plateia pediu e Dandara teve de cantar de novo. Em sua página no MySpace, os acessos à canção dispararam. No YouTube, o clipe da gravação da música já passa dos mil cliques. E o telefone começou a tocar. Dandara fará em breve shows em Campinas, São Francisco Xavier e Várzea Paulista, no interior. Em São Paulo, negocia com o Sesc para uma apresentação maior.

Sua próxima aparição pós-Musique será na sexta, às 20h, no Teatro Ciee (Rua Tabapuã, 445, Itaim Bibi). A entrada é franca mas é preciso se cadastrar no site do teatro antes de chegar à bilheteria (www.ciee.org.br). Além de Pavana, estarão no repertório músicas de uma turma para a qual a cantora faz questão de abrir cortinas: Jessé Santos, de Pernambuco; Pedro Novaes, de Belo Horizonte; Rafael Iasi, de São Paulo. E entre um e outro, espaços para canções de Wilson Batista, João Bosco e Lenine.

Ao falar de sua banda, Dandara dá aos músicos status de parceiros, não de acompanhantes. "Fazemos os arranjos, concebemos tudo sempre juntos." E desfila a lista, em tom de orgulho: Maurício Caruso na guitarra; Bruno Silveira na bateria; João Paulo Deogracias no baixo; e o tecladista André Lima, "padrinho" e companheiro de Musique, que também toca na banda de Mallu Magalhães.

E o dilema de se tornar mais uma cantora num meio em que novas cantoras saem do forno como pizza em noite de sexta? Dandara tem medo de dizer o que vai dizer aqui e soar pedante. Mas diz. "Hoje, com a tecnologia, é possível que uma cantora mediana cante bem. Mas quem tem talento é quem toca as pessoas, quem mexe com as pessoas em algum sentido." Em outras palavras, cantoras não faltam, mas talento não se vê em toda esquina.

Antes de querer se firmar no palco, sua preocupação parece ser a voz. Dandara estuda seu "instrumento interno" desde os 13 anos. Passou pela Universidade Livre de Música e teve aulas com a mestre Jeane LoVetri. Sua maior emoção em um palco, lembra, foi diante da Orquestra Filarmônica de Jundiaí cantando Beatriz, de Edu Lobo e Chico Buarque, e Pirataria, feita por ela em parceria com a mãe, Ieda Varejão. "Eu não acreditava que tinham feito aquele arranjo todo para minha música." E aí não deu para controlar. No palco, Dandara cantava e chorava ao mesmo tempo.

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