Uma voz amaciada nos grandes sambas

Zeca Pagodinho está cantando um pouco diferente em Vida da Minha Vida. Ao longo dos anos, como é natural no processo de maturidade, a voz adquiriu um tom mais grave e, com o aditivo de muitos goles e tragadas de um histórico de boemia, soa agora ainda mais curtida, prazerosa. As características rouquidão e desenvoltura não são novidade, mas parece que o tecido está mais macio. Nada mais adequado para o repertório de sambas românticos (que inclui uma homenagem coruja ao neto Noah, com som de harpa celestial e tudo).  

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

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Uma das boas surpresas do CD é a inclusão de Um Real de Amor (Fagner/Brandão), samba-choro dolente, que Fagner gravou no ótimo álbum dividido com Zeca Baleiro em 2003. O compositor cearense é bicho estranho no repertório de Zeca, que não perde oportunidade de destacar os amigos, até porque samba bom é o que não falta nessa roda.

Um deles é Rildo Hora, que produziu o CD com a habitual habilidade de mestre. E não poderia ser diferente - já que Zeca dedica o CD a sua madrinha Beth Carvalho, especialista na garimpagem do que se fez e se faz de melhor no setor nas últimas quatro décadas, período que corresponde à maior parte da existência de seu afilhado musical.

Almir Guineto, Beto Sem Braço, Serginho Meriti, Monarco, Nelson Sargento, Arlindo Cruz, Fred Camacho, Adalto Magalha são nomes comuns entre eles e vêm mais uma vez bater ponto no terreiro de Zeca, com sambas expressivos. Ao estilo gafieira, que rendeu dois CDs e DVDs para dar uma balançada nos partidários da MTV, ele canta o bem-humorado O Puxa-Saco (Aladir/Roberto Lopes/Levy Vianna) e o malicioso Quem Passa Vai Parar (Efson/Marquinhos PQD/Carlito Cavalcanti), certeiro dueto com Alcione, sem dúvida uma das faixas mais contagiantes.

Da Bahia. Além do Ceará de Fagner e do Maranhão da Marrom, Zeca mais uma vez se rende à Bahia de Nelson Rufino, autor de um de seus grandes sucessos, Verdade. Desta vez escolheu o samba romântico Hoje Eu Sei Que Te Amo, em arranjo dos mais bacanas, que harmoniza guitarra, violinos, harpa, gaita e as cordas e percussões convencionais de samba. É também uma das faixas em que Zeca está cantando mais bonito.

Ecos da Bahia reverberam também em Candeeiro da Vovó, comovente samba de terreiro de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, com arranjo de Mauro Diniz, coro de vozes calorosas e até Regina Casé fazendo voz de mãe de santo. Outro ponto alto do CD. É uma singela e bela homenagem à turma da antiga e à "velha Serrinha", como diz Zeca no final da canção.

E por falar em velha-guarda, os mestres da Portela abrilhantam outra das faixas mais pungentes, Dolores e Suas Desilusões (Monarco/Mauro Diniz), e Nelson Sargento brinda a inspiração do morro com Zeca na evocativa Encanto da Paisagem, de sua autoria.

Vida da Minha Vida (Sereno/ Moacyr Luz) abre o CD como um lastro luminoso feito de refinamento poético e melódico que destoa da simplicidade de Poxa. Nada contra o sambão-joia de Gilson de Souza, hit dos anos 70 que até Elton John já cantou, mas é que não cai tão bem a essa altura da história, apesar da boa interpretação de Zeca.

O elenco de instrumentistas é admirável, e vários deles dão toques especiais a cada faixa, como o trombone de Roberto Mendes, arranjador do belo O Som do Samba (Marcos Diniz/Barbeirinho do Jacarezinho/Luiz Grande) e o acordeom de Marcelo Caldi em Chama de Saudade (Beto Sem Braço/Serginho Meriti). É o vovô Zeca chegando à terceira geração em grande estilo.

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