Uma voz a serviço do outro

Djavan lança CD Ária, em que abre mão das composições próprias

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Vinte e três anos tinha Djavan quando decidiu deixar a Maceió natal, onde se apresentava em barzinhos cantando Beatles, pelo Rio, a capital das oportunidades. A família inteira, os amigos, todos foram contra. Na véspera da viagem, uma comitiva foi a sua casa tentar dissuadi-lo. Resoluto, certo de que precisava crescer, o rapaz partiu, conquistou espaço como crooner de duas boates da zona sul carioca, chegou à indústria, e venceu.

"Tinha certeza de que não podia continuar lá, tinha avidez por novas informações, para desenvolver meu trabalho artístico", o cantor, hoje com 61 anos, volta no tempo. As lembranças daquela época vêm à tona com o lançamento de Ária, seu novo CD (Luanda Records/Biscoito Fino), em que interpreta músicas que gostaria de ter composto, e que são de autoria de contemporâneos - Caetano Veloso, Beto Guedes, Chico Buarque, Edu Lobo e Gilberto Gil - ou de grandes do passado - Tom Jobim/Vinicius de Moraes, Cartola (com Dalmo Castello), Silas de Oliveira (com Mano Décio), Othon Russo.

Não era sua intenção desvelar pérolas desconhecidas. Se de Cartola/Dalmo ele escolheu um samba menos aclamado, Disfarça e Chora, de Gil gravou um clássico, Palco. Também pegou para si o superstandard Fly Me To The Moon. "O fato de serem canções batidas foi a razão da escolha. Isso implica um risco grande, não é nada confortável mexer em algo impresso na memória das pessoas de maneira irreversível", explica.

O projeto não é de agora, e encontrou sua vez num ano em que Djavan estava num momento caseiro, com filhos pequenos em casa (Sofia tem 8 anos; Inácio, 3). Ele ouviu milhares de músicas, puxou pela memória aquelas que embalaram sua infância, adolescência e início de carreira.

Este último é o caso de Brigas, Nunca Mais (Tom/Vinicius), que ele cantava noites e noites nas boates em que trabalhou. Sabes Mentir (Othon Russo), que está na novela Passione, ele aprendeu com a mãe, grande fã de Angela Maria, aos 6 anos. Foi a primeira do repertório em que pensou. Treze de Dezembro é um tema instrumental de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

Teimosia. O que poderia ser um disco mais simples de terminar, pelo fato de não ter sido precedido por um período de dedicação à composição, acabou lhe tomando um ano e meio. Ele conta ter se pautado puramente pelo próprio gosto na hora de passar a peneira.

"Eu sempre fiz o que quis, e acho que o público que sempre gostou de mim gosta do que eu gosto. Obedeço ao meu instinto", diz, revelando-se teimoso. "Quando escolhi Palco, as pessoas disseram: Você tá louco? A gravação do Gil é a definitiva! Quanto mais falavam, mais eu queria gravar."

Limpa, precisa, madura, a voz que sola nessa ária brasileira é aquela que o Brasil conhece e validou há mais de 30 anos, desde que começou a ouvi-la nas trilhas das novelas da Globo.

A sonoridade é enxuta: além de seu violão, ouvem-se o baixo de André Vasconcellos, a percussão de Marcos Suzano, Leonardo Reis e Marco Lobo e a guitarra de Torcuato Mariano.

O primeiro LP, A Voz, o Violão, a Música de Djavan, com o qual começou sua coleção de sucessos (é deste disco Flor-de-Lis) é de 1976; este é o 19.º. No início dessa trajetória, ele enfrentou resistências, ainda em Alagoas e já no Rio - "alguns produtores disseram que eu tinha algum talento, mas precisava mudar"; consagrado, viu-se tendo de aprovar versões de outros artistas para suas músicas, tal qual fez agora.

Autorizou muitas (de Sina, Meu Bem Querer, Faltando um Pedaço...), mas também negou: ele vetou, por exemplo, a gravação de Sergio Mendes de Oceano, há uns dez anos. "Você pode fazer o que quiser com a música, mas ele tirou a modulação que eu fazia, e isso me incomodou."

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