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Uma vitória da democracia

Donald Trump foi derrotado pelo seu desprezo pelos valores democráticos – diferenças devem igualar e não construir muros

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 03h00

Na véspera de minha primeira viagem aos Estados Unidos, em 1963, recebi de Dick Moneygrand – que iniciava suas pioneiras pesquisas no Brasil – um conselho inesquecível. “Na América – recomendou – faça sempre o contrário do que manda o seu brasileiro coração. Coma a pizza com a mão; não se preocupe com desodorantes, mas pinte o cabelo; obedeça ao que estiver escrito, jamais encoste a mão no seu interlocutor e não olhe fixamente para uma mulher bonita. Seja compulsivamente pontual e, acima de tudo, note bem – recomendou meu amigo com ênfase –, acalme-se quando sua reclamação for importante. Quanto mais difícil for o seu problema, mais calmo você deve ficar. Lembre-se de que, nos Estados Unidos, não existe o vosso nervoso e recorrente ‘Você sabe com quem está falando?’”

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O narcisismo e a base teatral da arrogância de Donald Trump me fez supor que Joseph Biden seria derrotado. Afinal, dizia meu julgamento cultural brasileiro, ele é idoso, é muito controlado e enfrenta uma dura polarização. Puxando, porém, pela memória, me lembrei de como os americanos enfrentaram polarizações muito mais tenebrosas como, em 1860, a Guerra Civil; na década de 50, o macarthismo fascista; em 1960, o movimento pelas liberdades civis, e outros eventos nefastos com decisiva serenidade democrática. 

Talvez a quietude seja um traço cultural puritano que obriga a aprender com os erros, convoca calma diante da pressa, resistência diante da agressão e controle diante do nervosismo. Um otimismo e uma confiança que a nossa ética da malandragem e do jeitinho trata como ingenuidade. Mas foi como eles reagiram a Pearl Harbor, ao assassinato de John Kennedy, ao terrorismo das Torres e, agora, diante da presidência etnocêntrica e antiglobalista de Donald Trump.

Trump sabe agora que não foi eleito rei, mas presidente. Conforme os recém-eleitos enfatizaram nas suas falas inaugurais, eleitos recebem periodicamente mandatos. Tarefas legitimadas pelo voto. 

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Algo jamais discutido no Brasil, onde os eleitos literalmente não inauguram, mas “tomam posse” de cargos que garantem a impunidade e facilitam o enriquecimento. No Brasil, os eleitos pelos pobres ficam imensamente ricos. Além disso, esquecem seus compromissos e atuam pessoalmente. Tal como Bolsonaro, eles se comportam de modo absolutista, olvidando que mandato não é fidalguia.

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Donald Trump foi derrotado pelo seu desprezo pelos valores democráticos – diferenças devem igualar e não construir muros e, acima de tudo, a preocupação com o planeta e não apenas com o seu poderosíssimo país.

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Essa vitória da democracia americana renovou em mim a crença nos ideais perdidos. Os únicos, aliás, pelos quais vale a pena lutar. Foi como um escutar da inteligência. Sobre isso, diz Thomas Mann: “O intelecto humano é fraco comparado com a vida instintiva do Homem. Mas há algo especial nessa fraqueza – a voz do intelecto é suave, mas ela não descansa antes de ter adquirido ouvidos. No fim, depois de inúmeras e repetidas rejeições, ele os encontra”.

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Tive a tentação de chamar essa crônica de “Mister Biden goes to Washington” (O senhor Biden vai a Washington) porque a vitória de Biden&Harris tem sido valorizada pelo recalcitrante narcisismo de um Trump que rejeita o princípio da realidade e não aceita a derrota. A dramaticidade da vitória levou-me ao filme de Frank Capra, realizado em 1939. No filme Mr. Smith Goes to Washington conta-se como um ingênuo senador suplente chega à capital das tramoias e dos cínicos realistas para derrotar com sua inocente integridade (toda integridade é inocente) um político corrupto e restabelecer valores adormecidos.

Quando ouvi o emocionante discurso de Kamala Harris – negra, filha de imigrantes, mãe indiana e pai jamaicano, educada naqueles Estados Unidos que reencarnavam a América –, veio-me a lembrança de um rapaz de Niterói que, graças à filantropia, foi estudar em Harvard e lá foi tratado como um igual. Daí ao filme de Capra foi um passo, pois rememorei o seu espírito e, na sua obra, a marca democrática dos que torcem pela igualdade como eu. Aquele momento foi, não tenho a menor dúvida, editado por Capra. Era a vida imitando no campo sujo da política, a arte; ou era o ideal democrático fundado em eleições a afirmar que existem ideais?

É HISTORIADOR E ANTROPÓLOGO SOCIAL, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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