João Miguel Júnior/Divulgação
João Miguel Júnior/Divulgação

Uma visita à dama da telenovela

Francisco Cuoco, Rodrigo Lombardi e o diretor Mauro Mendonça Filho falam da nova versão de O Astro, de Janete Clair, que começa a ser gravada no Paraná

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2011 | 00h00

Ao olhar de relance uma cena apontada pelo diretor Mauro Mendonça Filho na semana passada, o ator Francisco Cuoco observou: "Eu estava bem nessa época, não?". A imagem era boa sim, a de um belo sujeito com um turbante na cabeça e ar misterioso, mas o caso é que não era Cuoco, mas Rodrigo Lombardi. Diante disso, não pode haver dúvida de que a escolha para o protagonista da nova versão de O Astro, novela de Janete Clair estrelada por Cuoco em 1977 e que voltará à Globo como uma macrossérie de 60 capítulos, é acertada. A produção comemora os 60 anos da telenovela brasileira e estreia em 12 de julho.

Na releitura assinada por Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, Herculano Quintanilha mantém a tentativa frustrada de golpe, os anos na prisão e, mais adiante, o trabalho como vidente e a deliciosa dúvida - ele é mesmo um charlatão? Mas, agora, o papel de Cuoco fará toda a diferença: ele será Ferragus, mentor que Herculano conhecerá na prisão e que vai lhe ensinar tudo sobre a arte de iludir. Numa cena simbólica, gravada na sexta-feira no desativado Presídio do Ahu, em Curitiba, e acompanhada com exclusividade pelo Estado, Ferragus entrega a Herculano a ametista que vai enfeitar o famoso turbante - adereço de gosto duvidoso, é verdade, mas que marcou época na TV. "Eu falei pra ele "Cuoco, o Herculano é você 30 anos depois"", disse Mauro Mendonça Filho, durante esta entrevista, que reuniu Francisco Cuoco e Rodrigo Lombardi para falar do mito Herculano Quintanilha.

Cuoco, é comum que um papel passe de mão em mão em teatro, mas em TV os personagens costumam ser eternizados por um único ator. Ver o Herculano Quintanilha nas mãos do Rodrigo Lombardi não dá um ciúme sequer?

Francisco Cuoco: Não, de jeito nenhum. O sentimento é de fraternidade, e de estar inserido nisso novamente. Não está escrito, mas estou imaginando que o meu personagem diz que se chama Ferragus agora, mas que no passado já usou o codinome Herculano.

Mauro Mendonça Filho: Falei pra ele "Cuoco, você é o Herculano, 30 anos depois". E falei para o Rodrigo "ele é o Herculano, e o Herculano é você". Ninguém sabe quem é quem. Depois, o Ferragus começa a aparecer como um alter ego. Há várias interpretações.

Cuoco: Tem uma hora em que o Herculano pergunta "você está aqui mesmo?". E eu respondo "ou estou aqui, ou estou na sua cabeça".

E para você, Rodrigo, como é receber um personagem ícone?

Rodrigo Lombardi: No começo é um susto, bate um êxtase e depois você cai na real.

Cuoco: Esqueça a comparação.

Rodrigo: Na primeira cena, ele olhou pra mim e pensei "meu Deus do céu". De alguma forma, isso que estamos fazendo me faz pensar que também fui parte do primeiro O Astro. E agora o Chico é a minha ametista.

A série comemora os 60 anos da telenovela. Dentre tantas outras novelas marcantes, acha justa a escolha de O Astro, Cuoco?

Cuoco: Acho, ela tem seu destaque e valor. Mas tudo o que a gente vai fazendo vai se somando numa colcha de retalhos, em que há o vermelho, o verde... Então, O Astro é uma novela que está nessa colcha e que agora foi destacada. Claro que ela é especial.

Mauro: Vi muita novela na adolescência, e O Astro foi a que eu mais vi, porque ficava intrigado com aquele personagem, que a gente não sabia se era charlatão ou não - coisa que mantivemos na nova versão. E ficava impressionado com o Cuoco, a figura dele de turbante. Todo mundo tem essa imagem na cabeça. E a Janete estava à frente do seu tempo, então a novela parece agora perfeitamente encaixada.

Cuoco, você foi um ator fetiche da Janete Clair, que lhe deu vários papéis marcantes. Mantinha uma relação próxima a ela?

Não, não. Tenho até hoje o costume de deixar o autor e o diretor mais isolados, sem me intrometer. Você tem de executar, daí vai se credenciando a receber novas coisas preciosas. Com a Janete foi assim, eu a vi numa meia dúzia de festas durante tantas novelas.

Mauro: Eu brinquei muito na casa dela. Passei tardes brincando lá, e ela sempre escrevendo.

Cuoco: Na Fonte da Saudade, né?

Rodrigo: O Lima (Duarte) me disse que ela beirava o "humirde". Ela era uma espectadora de si própria, que vibrava com a própria novela no ar.

Cuoco: Ela tinha uma sabedoria inconsciente sobre o que o público poderia gostar.

Mauro: Hoje não há mais o herói perfeito em novelas. E olhe a genialidade dela: o herói de O Astro já era assim. Você passava o tempo todo sem saber se ele era ou não um charlatão.

Cuoco: Me lembro da cena final em que ele, num país da América Central, diz para o presidente "los astros tienen influencia...". E o povo gritando "Herculano, Herculano!".

Rodrigo: Ele é o herói possível, o cara da porta ao lado.

Soube que o turbante vai voltar na nova versão. Nem chegaram a pensar em abrir mão dele?

Rodrigo: Não!

Mauro: O Cuoco está de prova que ele surgiu de uma ideia do Daniel Filho (diretor do original) na hora de gravar.

Cuoco: É, ele pegou a perna da calça de um figurante e mandou botar na minha cabeça.

Mauro: Pois é, ficou uma coisa meio perigosa, que poderia dar errado, mas virou um ícone. E você não mexe com um ícone.

Rodrigo: Ouço sempre as mesmas perguntas: a música vai ser a mesma? Vai ter turbante? E se quem matou Salomão Hayalla vai ser a mesma pessoa. Você pode acrescentar expectativa em quem vai ver uma obra revisitada, mas não pode puxar o tapete de quem está esperando para ver certos detalhes.

Mauro: Quem tem de 40 anos pra cima tem alguma lembrança. A gente vai fazer um turbantão mais incrementado, mas vamos manter. E a música também, que foi composta especialmente para a novela. Quanto a quem matou Salomão Hayalla, é um segredo de Estado.

Cuoco, o Brasil se apaixonar por um picareta como o Herculano diz algo de ruim sobre nós?

Cuoco: Não, diz algo sobre o ser humano, que tem várias facetas. Algumas reveladas, outras não.

E agora ele faz mágicas, antes era só vidente. Por quê?

Rodrigo: Quando se dá nova roupagem a uma história que já foi contada, é preciso um sabor de novidade. A mágica entra no personagem para dar um quê de modernidade. E a gente vai fazer a mágica em cena, não vai ser aquela coisa de "corta" e "pronto, a mágica foi feita". O mágico faz você acreditar que ele é uma pessoa que ele não é. Ele injeta morfina na realidade, e é necessário na vida das pessoas.

Cuoco: Numa cena, eu digo "Todo mundo precisa ter ilusões, ser enganado. Principalmente as mulheres".

E agora o Herculano "traz a pessoa amada"?

Cuoco: Traz.

Rodrigo: (risos) Mas não garante que ela vá ficar...

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