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Uma viscontiana reinvenção do tempo

Talvez, para motivar o espectador que for ver O Amor Louco de Yves Sain Laurent, se possa dizer que o documentário de Pierre Thoretton, por mais diferente que seja de Santiago, de João Moreira Salles, tem alguma coisa do clima daquela obra-prima do gênero, no Brasil.

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2010 | 00h00

Por meio da história do mordomo da família, João contava a própria história, sobre como Santiago ajudou a esculpir seu imaginário - não só o dele, o dos irmãos - e a família era simplesmente a do banqueiro Walter Salles. Havia algo de viscontiano naquela história. O clima decadentista, de fim de uma era. Há um pouco disso em O Amor Louco, em que Thoretton ouve o retratado, mas opta por seu ponto de vista de diretor.

É curioso que Pierre Bergé tenha desaparecido do título brasileiro. Pois, no original, fica claro que o "amour fou" é dos dois, Saint Laurent e Bergé, seu companheiro por mais de 50 anos, desde que se conheceram no enterro de Christian Dior, em 1957, até a morte do estilista em 2008. Nos EUA, no Brasil, em países onde Bergé não é (tão) conhecido, a ênfase fica no nome do estilista. Viveram juntos durante meio século. Poucas uniões resistem tanto. É, aliás, o que diz o próprio diretor na entrevista acima. Thoretton, por experiência própria, sabe que as uniões modernas não duram tudo isso. Foi a curiosidade de descobrir o segredo da permanência/convivência que o levou a fazer o filme.

 

 Veja também:

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linkO eterno amor de Saint Laurent e Pierre Bergé

 

 

Como Santiago, O Amor Louco é um documentário nas bordas da ficção. Constrói-se em torno ao leilão da Christie"s, quando Bergé se desfez do imenso patrimônio cultural e artístico - todas aquelas obras de arte - que Saint Laurent e ele acumularam ao longo do tempo. Até pelo perfil do entrevistado - além de colecionador, Bergé era empresário e, como tal, foi quem construiu o império em torno da sigla YSL -, o filme fala de arte, de moda, mas é essa indagação sobre o tempo, o afeto. Como um herói viscontiano, em seu castelo que vai sendo despossuído dos bens, Bergé volta-se para o próprio passado e reconstitui com voz calma, como Santiago, uma história de amor que, a despeito de altos e baixos, está sendo eterna depois de ultrapassado o prazo de validade.

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